quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Aniversário da Ana Eugênia

Após o mundo não ter-se acabado,
E permanecermos aqui viventes,
Podemo-nos jubilar de contentes,
Por ser tempo do nascer celebrado.

Não digo do fato bimilenar
- Quando o Verbo de Deus foi encarnado-;
Mais fui de uma bem-nascida inspirado,
Pois ela veio ao mundo melhorar.

Venho, enfim, desejar-lhe muita vida,
Amor, paz, saúde e prosperidade;
E que se embriague (de comovida!)
Pela alegria crescer co'a idade.

27 de dezembro de 2012
W.R.B


Peculato

Peco sim, em sentido lato
Já que fui contratada para trabalhar
Peco sim, com este simples ato
Já que não recebo para divagar

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Texto de autoria de um grande amigo

Theodoro Anselmo não voltou para casa no horário usual. Tatiane Márcia, sua esposa, observava o relógio. Igualmente preocupada e enfurecida, pensava:

- Se ele não morreu, eu mato!

E assim passou aquela noite em claro. O celular de Theodoro Anselmo estava fora de área. Ela criou trinta e oito teorias sobre o que poderia ter acontecido. “Ele deve estar por aí com alguma quenga e perdeu a hora” ou “E se ele tiver sido sequestrado?”. E o dia raiou. Tatiane Márcia foi até a delegacia na companhia de uma de suas cunhadas. Ninguém sabia do paradeiro de seu marido. Ela não pôde ir trabalhar. Seu chefe compreendeu. Procurava por toda a cidade. A última informação que obteve era de que ele havia saído do trabalho normalmente na quarta-feira.

Tatiane Márcia não teve tempo sequer para choro, mas já começava a se desesperar. O dia passou e perfazia vinte e quatro horas do sumiço. E agora somente pensamentos trágicos povoavam sua mente. A noite veio. Terrivelmente cansada e desolada, já não sabia mais o que fazer. Deitou-se estatelada no chão da sala de sua casa e não levantou, estava em choque.

À meia-noite ouviu a campainha tocar. Com um misto de medo e esperança, atendeu a porta. Viu correr longe um rapazote. Uma carta no chão. Abriu. “Encontre-me às dez da manhã no beco onde nos amamos pela primeira vez. Não leve ninguém contigo ou algo ruim poderá me ocorrer. Theodoro Anselmo”.

Tatiane Márcia não era lá uma pessoa muito intuitiva, mas sentia que aquilo não era nada bom. Aquela era a letra de Theodoro Anselmo, com certeza. Isso a tranquilizava, contudo, o mistério envolto naquele recado não lhe trazia a melhor das esperanças. Não avisou a ninguém do ocorrido.

Acordou da noite mal dormida. Aprontou-se. Lá estava Tatiane Márcia relembrando, de uma forma muito dolorosa, o início de sua relação com Theodoro Anselmo. Cada passo, cada rua atravessada em direção ao beco só a deixava mais aflita. Assim que adentrou o local, avistou um envelope vermelho no chão. Sem titubear, abriu. “Estou em perigo. Transfira todas as joias da nossa casa para a casa de sua mãe ou para algum outro lugar de sua confiança. Theodoro Anselmo”.

Perplexa com tal informação, Tatiane Márcia se sentiu insegura. Realmente as joias eram o que possuíam de maior valor na casa. Voltou assustada para seu lar. Adentrou seu quarto e mais que rapidamente digitou a senha do cofre. Pegou todos os anéis e colares e os colocou em uma sacola. Um anel com um enorme diamante chamou-lhe a atenção. Era muito bonito. Aquela joia não lhe pertencia. Ouviu um barulho às suas costas. Virou-se. E ouviu:

- Gostou da surpresa?

Sampaiomdc

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Salão dos passos descobertos

Ele se mostrava introspectivo em sua origem. Quando pequeno gostava de brincar sozinho. Inventava histórias com diálogos complexos e interpretava todos os personagens. Na escola sempre foi o menor da classe e talvez por isso não era capaz de olhar nos olhos de ninguém. Foi desse modo que ele desenvolveu aguçadamente um sentido: a audição.

Ouvia os barulhos mais ínfimos como o pousar de uma mosca na lâmpada fluorescente ou ainda o sussurrar de uma brisa leve, mas o que mais o interessava eram os passos.

O garoto era capaz de identificar pessoas conhecidas apenas pelos passos que davam. Passos cansados, arrastados, alegres, firmes ou enérgicos forneciam boas pistas sobre a personalidade das pessoas, pensava ele.

Começou estudando uma pessoa por vez. Tinha por volta dos dez anos quando, com um caderno brochura, criou uma tabela simples relacionando comportamento versus passos.

Sua primeira cobaia foi sua mãe. Ela era uma mulher magra e bem agitada e suas passadas eram para ele inconfundíveis. Indicavam a mulher ocupada e inquieta que era. Sempre trabalhando e procurando sustentar a ele e aos seus três irmãos.

O pai os havia trocado por uma mulher bem mais jovem e a maneira que sua mãe encontrou de esquecê-lo foi trabalhando incessantemente. Os passos dela eram automáticos e até ritmados: três por segundo. Eles também não cessavam por longos períodos. Novas varizes brotavam diariamente devido a isto.

Após a mãe, ele analisou os irmãos e foi estendendo a pesquisa às pessoas que compunham o seu circulo de relacionamentos. Analisou tias a tios, primos próximos e distantes e as pessoas de sua sala de aula. Apesar da distração de seu hobby seu desempenho escolar não havia diminuído nem um pouco.

Registrou suas anotações e, ao final de um ano de pesquisa incessante, conseguiu tirar algumas conclusões básicas.

Ele sabia que estas conclusões não eram regras, mas apenas direcionamentos. Claro que algumas pessoas e alguns passos desviavam-se dos padrões esperados ou ainda não condiziam com o comportamento de quem os dava. Todavia, a grande maioria mostrava-se harmônica com o por ele previsto.

O tempo foi passando e seu frisson por passos permaneceu. Entristecia-se ao ver sua mãe com passos cada vez mais robóticos. Queria poder ajudá-la. Mas como? Se ele mesmo tinha passos tímidos e sem vontade? Se ele não enfrentava os próprios problemas ou ainda olhares alheios?

Apesar de sua baixa autoestima, o garoto conseguiu encantar uma bela menina de tranças compridas e olhos vivos. Tinha treze anos quando cedeu aos encantos desta garota de  passos largos, destemidos e ousados.

A partir daí o garoto vivenciou anos dourados. A vida que era sombria e fria ganhava mais cores e clichês diversos. Continuava o mesmo: tímido, pouco confiante, mas agora amava e apoiava-se em alguém forte. Ela era como uma muleta para ele, na qual ele se prendia e sem a qual não sabia viver.

O relacionamento durou exatos nove anos. Findou-se em razão do intercâmbio de quatro anos desta para a Austrália. Ele, apesar de imensamente desolado nos primeiros meses de término, entendeu que aquela pessoa que lhe foi tão querida havia compartilhado momentos incríveis ao seu lado com o propósito de encorajá-lo a alçar vôos cada vez mais ousados. Suas passadas indicavam isto desde o início.

Desde o fatídico acontecimento a reflexão tomou conta de seu ser: Será que os passos permaneceriam os mesmos a todo tempo da vida? Será que eles, assim como seus donos não são capazes de mudar ou adquirir novos comportamentos, às vezes até contraditórios aos anteriores? Todas estas perguntas rodeavam-no a todo o tempo. Empiricamente constatou que são poucas aquelas pessoas realmente dispostas a mudar.

Isto visto que a mudança é sempre algo incômodo. Muitas variáveis podem estar em jogo. Muitos preferem não se arriscar e permanecem numa zona de conforto constante, mesmo que não seja aquela sua real vontade, mas por ser a via mais simples e menos traumática.

Lembrou-se de sua mãe. É óbvio que ela não gostaria de permanecer naquela condição. Mas para onde iria? Seria confortável para ela recomeçar? A incerteza e a tensão do novo podem se materializar em uma inércia pacífica e prolongada.

Ele mesmo pensava em mudar. De passos, de país, de vida. Apesar da convivência da garota ter-lhe feito uma pessoa melhor, suas convicções permaneciam as mesmas, seus passos arrastados e sem entusiasmo e as ideias de mudar eram-lhe apenas latentes e não saiam do plano aristotélico das ideias. 

Certo dia, numa noite de sábado, o garoto demorou a dormir. Teve sonhos pouco compreensíveis e os passos ressoavam em sua cabeça como sinos. Ao levantar percebeu que seu pé direito encontrava-se um pouco mais inclinado para fora. Suas passadas tímidas e arrastadas agora eram mais largas e ousadas. Andava como uma criança que acabara de descobrir a função dos pés.

Tropeçou por vezes até se firmar. As pessoas começaram a cumprimentá-lo com um sorriso no rosto. Sua cabeça foi aos poucos deixando de fitar os pés e passou a acompanhar a linha do horizonte.

As cores que a presença de sua musa traziam retornaram com mais brilho e pompa. Preservara seu hábito de analisar os passos até o fim de seus dias, mas agora olhava também as pessoas em seus olhos e exalava autoconfiança.

Por vezes teve medo de retroceder, de acordar frágil e desconfiado. Não! Seus passos só ganharam mais destreza e vivacidade e a partir de certo tempo tornaram-se para ele muito naturais.

O garoto então, agora com seus vinte e três anos, decidiu largar o curso de Engenharia Civil que havia começado por influência e pressão do pai e decidiu fazer o que lhe aprazia: Fotografia e Comunicação Visual.

Apesar de feliz pela visível mudança do filho, sua mãe não mudava o andado. Vivia ocupada demais para conversas triviais e recusava cafunés. Ele resolveu dedicar-se ao árduo processo de modificar-lhe os passos e de quebra a maneira de enxergar a vida.

Comprou a ela roupas novas e a presenteou com um dia no SPA. Os compromissos inadiáveis, segundo ela, foram facilmente remarcados pelo filho.

Em determinado momento do dia ela conseguiu se olhar no espelho e perceber que ainda era bonita. Que sua pele, apesar de não ser um pêssego, estava bem rígida. Orgulhou-se das suas linhas de expressão e pensou em quantas histórias cada uma delas não guardava.

Saiu de lá leve. Seus passos mais tranquilos. Ganhou elogios obscenos ao passar em frente a uma construção e riu prolongadamente como há muito tempo não fazia. Ao chegar em casa abraçou o filho e sem dizer uma palavra ambos se entenderam e choraram copiosamente. Aquele tinha sido o primeiro e mais importante passo de uma mudança iminente e certa.

O garoto - agora homem - formou-se com honras na faculdade e, contratado por uma multinacional, hoje viaja o mundo fotografando minúcias e detalhes. Casou-se com uma mulher distinta de passos firmes e convictos e exatamente hoje ensina sua primeira filha a andar.



domingo, 3 de novembro de 2013

Umalamar

Você pede o meu perdão
Mas eu não tenho o que perdoar
Eu não sabia que você
Gostava de se enganar
E me enganando fez saber
Como era inútil meu querer

Tanto fiz pra convencer
Que o meu amor
Seria a solução
De todos seus imbróglios e aflições
Uma alma só e dois corações

Mudei meu andado
E o meu jeito de pensar
Comprei aquele velho dicionário popular
Falei bonito e certo
Pra poder te impressionar
Mas pra quê? Mas pra quê?

Eu que cheguei há pouca hora
Não tenho por que me demorar
Afinal sua vida tá bacana
E quem sou eu pra bagunçar

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Nonsensism*

Um cabelo no meu umbigo
Estava banhado no formol
Mas nada disso se compara
À menina que só falava em si bemol

Ela fala de si para consigo
Enquanto eu fico olhando o meu umbigo
E pensando cá comigo
Que não tenho o que pensar

Tanta coisa a se fazer
Tanto caminho a ser trilhado
E a água no chuveiro
Quente e esfumaçando o telhado
Vai esvaindo pelo ralo

Marcando o tempo em que o tempo estará acabado.


*The term covers any kind of funny nonsense, absurdity without realistic logic. It includes virtually every kind of absurdity from mock logic to fantastic common sense, and a variety of fallacies without rhyme or reason.

domingo, 8 de setembro de 2013

Dia todo dia

De Sua Terrível Qualidade Qual Seria Senão: A COTIDIANIDADE!



Domingo-feira

Domingo é dia de acordar tarde
De escovar os dentes e logo almoçar
Mas aqui em casa o esquema é diferente
Meu pai acorda cedo e vai logo me chamar

- Vamos à feira. Sua ida está valendo um pastel
Aprecio a companhia dos filhos
E ainda te pago uma garapa
Doce feito mel

Reviro pela cama e quero acreditar
Que aquilo não passou de um pesadelo
Enquanto escuto meu irmão resmungar
Ignorar ou aceitar de vez aquele apelo

Então levantamos todos
Dispostos feito a peste
E minha mãe já vai gritando
“escolha bem e o que preste!”

O pastel é a primeira parada
Cada um já possui seu sabor definido
Carne, carne com queijo e queijo com presunto
Depois disso todo mundo se sente bem nutrido

É então que meu pai se aproveita
Traz-nos com um único objetivo:
O de carregar as compras para casa
E nos suborna com um pastel sugestivo

Olha a gueroba, gueroba
Beleza da natureza
Olha a nossa banana terra
Que maravilha, que beleza!

Depois que o cobre da feira acaba
Lá voltamos nós para o aconchego do lar
Carregando sacolas pesadas
Dizendo ser a última vez que ele conseguirá nos engambelar

Mas não resistimos e voltamos
Ludibriados pelo pastel enganação
Que nos retira da inércia dominical
Que acaba se transformando em uma rotineira diversão

Sappy love songs on the radio


Não consigo deixar de escrever
Minhas mãos coçam para externar
Meu cérebro ferve por você
Por mais macabro e anti-belo que isto possa parecer

Tenho coisas a fazer
Afazeres domésticos, escolares, laborais
Mas faço questão de parar um tempo
E escrever sobre seus dons naturais

Seu dom de me fazer rir tão levemente
De deitar sua mão sobre a minha
De ressuscitar o meu lado Pollyana*
De ver o melhor que a vida tem e tinha

Acho que paro por aqui
Embora possa discorrer sobre você páginas a fio
Mas me contenho por causa do meu coração

Isso porque meu plano de saúde é AMIL**.

* Pollyana é um livro de Eleanor H. Porter, publicado em 1915. Ele conta a história de uma menina que apesar de todas as dificuldades, como a morte de seus familiares, permanecia contente e altiva praticando um jogo por ela inventado, chamado Jogo do Contente.

** AMIL é uma empresa de planos de saúde e a citei apenas por fins poéticos. Não é minha intenção denegri-la, mas apenas imbuir de humor meu texto.

Movimento inicial igual a zero


Como será o processo de criação
De algo que simplesmente sai do nada
A folha em branco é o início da canção
Que ainda não sabe a quem ou a que será destinada

Nado em palavras até encontrar a certa
E a cada braçada a certeza se distancia
Apago, reescrevo e acredito estar sendo esperta
Mas o medo me aperta, me espreme e se anuncia

O medo de que justapostas as frases que fiz
Transmitam errônea mensagem
Ou ainda pareçam sem nexo, sentido ou vis

Culpando-me da minha ousadia, (ou seria coragem?)

Inconstância cotidiana

Quando tudo parece estar pacífico
Quando a sobriedade te felicita com um alegre pesar
E você aceita que esse momento perdure
Não basta uma boa noite de sono para ele passar

E o que tinha adormecido tranqüilo
Sofre uma reviravolta inimaginável
Que traz consigo todas as outras questões não resolvidas
Deixando-lhe sem jeito de permanecer agradável

Mas infelizmente não fico surpresa
Esta não foi nem será a última vez
As lágrimas ardidas são como amigas estrangeiras

Que vão, mas voltam a me visitar de quando em vez.

sábado, 31 de agosto de 2013

Strength in the wig


O caminho obscuro traz claridade ao seu fim
Na reportagem há um furo, um tiro de festim
Que atravessa a parede oca e cinzenta
E invade o nada querendo atingir a mim

Mas a caminhada é longa e árdua
Minhas camadas diversas
Divirto-me com o atrevimento
Reflito e choro por um momento
Mas procuro me recuperar às pressas

As forças que em mim habitam
São por muitos desconhecidas
Camuflam-se na leveza e fragilidade
De uma donzela enternecida

Mas trespassando as anáguas
Da doce fêmea em perigo
Habita uma corajosa guerreira
Capaz de superar os mais intensos ataques
Até a mais branda besteira

Sempre altiva (uma diva!) que levanta e sacode a poeira.

Família: nosso maior Tesouro


Interior do Mato Grosso
Bem pra lá do meu Goiás
Fui procurar um refúgio e acabei encontrando mais
Parentes e amigos de antigos carnavais

Numa cidade tão pequena
É impossível se perder
Do vendedor de picolé
Ao prefeito que tem fé
Todos, felizes irão te acolher

Cachoeiras tão bonitas
Em todo o trajeto, desde seu nascedouro
Nos remetem à época dos garimpos de diamante
Em que vinham de todos os cantos
Homens na esperança de encontrar algum tesouro

Mas é possível que nesse decurso de tempo
Eles se deram conta que há algo mais valioso que todo o ouro
A união, a família e o companheirismo
Essa tríade sim é o nosso maior Tesouro

Volte a tomar a pílula


Se o tempo não espera
E o compromisso nos aguarda
Se o pedestre se desespera
E o banhista fica na retaguarda
Tá tudo OK!

Mas se a vida parece louca
E sua avó vive de touca
É melhor você se preocupar

Tome um banho demorado
Tire um dia de folga, num feriado
Comece a assistir novela: o rei do gado
Resumindo: deixe o estresse de lado

Compre um xampu com nutrientes e cuide-se
Coma barra de cereais e emagreça-se
Dê moral para o seu vizinho frentista e abasteça-se (de amor!)
Escute as opiniões alheias e foda-se

Mas nunca se esqueça da pílula roxa
O elixir mágico de uma vida boa
Uma dose pros bons e duas pros trouxas

E aquilo que mais te angustia se avoa!

Outro tempo começou


Então me vejo cercada de um vazio imenso
Que ocupa os não tão tênues vales do meu sofrer
Dando corpo a um sentimento de não sei o quê
Que chega de repente e sai sem se fazer perceber

O marasmo ataca novamente
Impregnando as entranhas tristes do meu eu
Parece que vai ser pra sempre
Parece que já não tenho um parecer
Parece que é somente aquilo que aparenta não ser

No embaraço de uma mente confusa
Palavras avulsas ganham materialidade
E tingem o papel branco e imenso
Com uma total liberdade, ousadia e espontaneidade
Como peças colhidas na construção de um belo jardim suspenso

Suspendam agora minha bebida
O fluido suave e tinto que me permite divagar
Que me transforma em artista, ou ainda numa bela vista
Que emoldurada janela (estática e “na dela”)
Coloca-se a me admirar e suspirar bem devagar

Outro tempo começou
Agora tudo é paz, tudo é beleza
Adeus pra ti tristeza
Saudades não vai mais deixar

Mas eu sei que um dia ainda volta
Desenterrando a minha inocente dormência
Reavivando com força a minha revolta
Trazendo a tona minhas vivências

E fazendo da saudade sua fiel escolta

Sofá away

Tão distante daquele olhar
E tão próximo de algum lugar
O coração do homem aflito batia veloz
Esperando uma canção antiga
Na cantiga de uma velha amiga
Senhora de veludosa voz

Sua lira despertava a paz
Os acordes incitavam mais
A jogatina e o rum potencializavam emoções
Um choro contido ganhou proporção
A prostituta usada limpou o borrão
E ao fim da música todos procuravam explicações

Tão distante daquele olhar
Agora distante de qualquer lugar
O mesmo homem dormia
Ébrio e embaixo da pia

Procurando momento certo de parar.

Crise renal



            Thályssa Kelly tinha quinze anos quando conheceu Protógenes. Ele, com seus trinta e tantos, precisava de uma companheira para cuidar da casa e procriar. Queria deixar descendentes. Uma dúzia deles. Foi então que resolveu convidar Thályssa para com ele morar.

            Esta, por sua vez, ansiava por sair de casa, visto que não mais aguentava ver a genitora sofrer nas mãos de seu pai que, bêbado e enciumado, surrava-lhe por todo e qualquer motivo. A mãe ainda não o havia denunciado por medo e receio de que ele cumprisse as ameaças de morte que constantemente fazia. Pelo mesmo motivo Thályssa se calava, com pesar em ver a perpetuação da desgraça de sua mãe.

            A menina, que já não era mais virgem, havia sido deflorada por um tio próximo e perdera a idealização no amor. Todavia pensava ela que o casamento, ou nesse caso, o morar junto, a união estável significariam a libertação daquele ambiente conturbado e, portanto, ansiava por isso com um inocente brilho no olhar.

            A família não se opôs à união. O pai até gostou, já que necessitaria preocupar-se de agora em diante apenas com os quatro filhos que, menores, ainda estavam sob sua responsabilidade. A mãe parecia inicialmente temerosa, mas entregou a filha nas mãos de Deus e rezava por esta todas as noites, implorando a Ele para que ela tivesse um destino diferente do seu.

            Chegou o dia da mudança. As malas, surradas, já estavam abarrotadas de roupas, bijuterias e algumas lembranças da infância não tão distante. Um almoço foi organizado pelo pai da moça como forma de celebrar a união do casal, além de um agradecimento implícito à Protógenes por retirá-la de sua asa, de sua responsabilidade.

            A menina-moça sorriu e dançou naquele almoço que congregou a todos da rua. Fartou-se da comida da mãe e, ao vê-la, percebeu que a deixaria ao relento, nas mãos daquele marido truculento e incompreensivo. Por um momento pensou em desistir, mas não o fez. Assim como a mãe, a menina reza por aquela todos os dias, e pede pela felicidade e harmonia daquele lar.

            Os irmãos despediram-se chorosos da irmã, mesmo sabendo que ela não se mudaria para tão longe. Bastavam dois ônibus para que pudessem se encontrar. Mesmo assim, abraçaram-na intensamente.

            A recém-juntada partiu com seu companheiro e preferiu não olhar para trás. Enxugava uma lágrima que teimava em escorrer ao mesmo tempo em que estampava um sorriso tímido em seu rosto rosáceo.

            Ela não sabia muita coisa sobre seu amásio. Ele era amigo de seu pai e trabalhava com este no ramo da construção civil. Foi numa festa de família que foram apresentados por aquele e começaram a se encontrar ocasionalmente. Sabia pouco: que ele já havia se casado anteriormente, que torcia para o Fluminense e que veio do Tocantins. Sabia ainda que ele tinha problema nos rins. Veio descobrir mais com a convivência diária.

            Apesar do pouco estudo, Protógenes se atrevia a escrever uns pequenos e prosaicos versos à amada. Entregava-os junto com uma caixa de bombom da Erlan em datas comemorativas.

            Ele bebia socialmente e não era dado à farra até altas horas. Também não fazia uso de tóxicos de nenhuma espécie. Não tinha religião, mas respeitava a fé católica fervorosa da parceira. Tinha como defeito a jogatina exacerbada. Apostava no bicho sempre que tinha dinheiro. Apesar de ganhar às vezes, perdia em proporção bem maior. Também não era calmo e, com o pavio curto, estressava-se por qualquer besteira, principalmente por ciúmes de Thályssa. Nesse ponto, assemelhava-se ao seu pai.

            Os primeiros meses de relacionamento foram tranquilos e seguidos de uma gravidez benquista por ambos. Thályssa fazia bicos como manicure e passadeira, além de vender produtos da Avon para suas clientes. Os bicos eram conciliados maestosamente com a arrumação da casa e o zelo com o marido, principalmente nos períodos de crise renal deste.
            A menina, que ganhava e guardava algumas de suas economias, sentiu o gosto da independência da qual sua mãe sempre a incentivou conquistar. O que ganhava não era muito, mas como ainda estava nova, poderia fazer cursos e se profissionalizar.

            Visitava a mãe aos finais de semana e percebia os hematomas desta cobertos porcamente com uma base e pó compacto com os quais a havia presenteado. Sentiu pena e pensou em levá-la à delegacia para prestarem queixa.

            Todavia, ela ainda não tinha condições de acolher sua mãe em sua residência e o pai repetia a todos que quisessem ouvir que não deixaria a residência do casal em hipótese alguma. Afirmava que mataria aquele que o tentasse fazer.

            Isto apenas a impulsionou a buscar a independência ampla e irrestrita a fim de que pudesse cuidar de si, dos futuros filhos e de sua genitora caso o marido se transformasse no reflexo de seu pai. Foi então que, vendo o jornal, soube de um curso gratuito de costura e decidiu fazê-lo.

            O amásio, cujo consentimento não havia sido requisitado, sentiu-se irritado de início, porém concordou com a escolha da garota sem, contudo, apoiá-la. Passados quatro meses de curso, a menina, amadurecida pela vida, terminou-o e foi admitida a título de experiência em uma confecção.

            O novo trabalho ocupava boa parte de seu dia. O restante dele era preenchido pelos deveres domésticos de manutenção do lar. O tempo para o cônjuge era ínfimo. Ele, que também trabalhava de sol a sol, chegava em casa e encontrava a mulher abatida e sem ânimo nem para com ele conversar.

            Passado o primeiro ano da união, com a primeira filha nascida e outro por vir, o relacionamento foi se desgastando e caindo na rotina. Os poemas que já eram ralos, agora nem mais existiam. Thályssa, que se arrumava bastante às sextas-feiras para ir à bodega com Protógenes, agora nem isso o fazia. Deixava-o ir sozinho e não importava se este voltava tarde.
            A bebida tornou-se a companheira das noites do velho-moço. Apesar da constante formação de pedras nos rins, Protógenes não mais resistia a uma tulipa de cerveja bem gelada para estancar suas aflições. Encontrava nela a cumplicidade que sua senhora não fazia questão de suprir.

            Em certa data, ouviu no noticiário, na televisão do bar, que o álcool inibe um hormônio antidiurético produzido pelo organismo, chamado vasopressina. Que esse hormônio faz o corpo reabsorver certa quantidade de água existente na urina, impedindo a desidratação. O médico da reportagem explicou que, com o álcool na corrente sanguínea, toda a água que seria reaproveitada é excretada, facilitando a formação de microcristais nos rins.

            Apesar de não entender boa parte da reportagem, demonstrou preocupação pela frase exarada pelo médico. Ainda mais porque ele já era predisposto à formação de cálculos renais. A preocupação passou com o primeiro gole de cerveja que ingeriu e foi diminuindo com os subsequentes.

            Nesta data, Protógenes chegou em casa extremamente alterado e proferiu inúmeros xingamentos à pessoa de Thályssa. Disse haver se arrependido de tê-la trazido a morar com ele e que só tormentos havia trazido à sua vida. Que ela não merecia o homem que ele é e que, se fosse como seu pai, já a teria esmurrado à beira da morte tamanha insolência.

            Logo após dito isso, rolou de dor no carpete da sala. Os rins atacavam novamente. A menina-mulher pensou em não socorrê-lo. Pensou em arrumar as malas e seguir seu rumo juntamente com a filha recém-nascida. Mas algo a dizia para ficar. 

            Teimou em aceitar aquela ideia e, por fim, preparou um chá de quebra pedras para o companheiro.  Este a prometeu que daquele dia em diante cuidaria melhor de sua saúde. Porém não o fez. Continuou na jogatina desenfreada potencializada pelo uso do álcool. Dizia que a bebida aumentava sua sorte.

            Chegava em casa e xingava a vítima de nomes cada vez mais sujos. Certo dia, tamanha a bebedeira, desferiu um tapa no rosto desta. Logo depois destes picos de agressividade e estresse o companheiro reclamava cada vez mais frequentemente de dores na região dos rins.

            A mulher-vítima lembrou-se dos hematomas de sua mãe cuja maquiagem não mais os encobria. Escondeu a vermelhidão em seu rosto e fez com que o autor das agressões, que se recusava a procurar um médico, ingerisse bastante liquido.  

            Cuidava da casa, zelava de seus filhos e costurava desenfreadamente. Sua máquina de costura não parava um segundo. À noite cumpria sua obrigação conjugal deitando-se com o marido, que a cada dia mais ébrio era mais agressivo e menos carinhoso.

            A máquina de costura trabalhava barulhenta às madrugadas. Felizmente o sono do bêbado era pesado. O turno na empresa havia sido dobrado e ela conseguira uma promoção. Passou a ganhar consideravelmente melhor.

            As dores vinham intensas agora diariamente. A bebida aliviava e encaminhava-o ao seu fim. Apesar da doença o deixar fraco, isto não o impedia de levantar a mão à mulher e humilhá-la. Ela lhe limpava o vômito alcoólico e preparava-lhe o banho.

            Costurava e as lágrimas caiam sobre a lã, a seda e o cetim. Enxugou-as e acelerou a finalização de um cós. Ao amanhecer ligou para a mãe e ambas trocaram tristes novidades.

            Mais um ano se passou. Thályssa assistiu à virada do ano na Globo e dormiu. Foi acordada pelo amásio que, bêbado como de costume, reclamava-lhe de dores agudas. Não mais conseguiu dormir e então costurou até o nascer do sol.

            Arrumou sua casa pela última vez. Pegou suas economias, seus filhos, algumas roupas e suas lembranças da não tão longínqua, mas saudosa infância. Passou na casa de sua mãe e ambas partiram rumo a local incerto e não sabido.

            Ao acordar, Protógenes encontrou um chá de quebra pedras morno.















A ajuda


Guilbert. Esse era um nome que todos na pacata cidade de Bacabal conheciam bem. Não havia viválma na cidade que não enchesse os olhos de lágrimas quando o nome do garoto era pronunciado. Lágrimas orgulhosas, de afeto e admiração.

Também pudera, numa cidade em que mais de setenta por cento da população não sabia assinar o próprio nome, o menino Guilbert, persistente que era, conseguiu passar em um vestibular concorrido para Medicina.

Todos na cidade colaboravam para a formação do menino prodígio. Seu Manoel tirava do pão de todo dia para poder contribuir. Dona Josefa dobrava o turno na venda de tapioca para inteirar o auxílio do mês. A cidade inteira se mobilizava nesta causa tão sublime.

Isto porque o menino vivia com sua avó materna, uma senhorinha de oitenta e poucos anos que tirava seu sustento da aposentadoria do marido, que em seus tempos áureos havia sido militar. Deste modo, dona Deolina, apesar de ansiar pelo sucesso do neto, não poderia ajudá-lo a realizar seu grande sonho.

Tudo começou quando Guilbert, por um acaso, passou em frente à enfermaria/hospital da cidade. O menino, à época com quatorze anos de idade, fixou o olhar em uma criança abatida, de idade próxima à dele que lhe implorou por socorro.

Socorro? Mas como aquele menino poderia ajudar? Ele não possuía conhecimentos médicos. Ele era só uma criança.

O menino permaneceu inerte por alguns minutos. Parecia tentar processar a informação e procurar uma resposta plausível para o apelo que o havia sido feito. Nada vinha à sua mente.
Esgotada a sua energia mental, o menino correu daquele local o mais rápido que pôde e prometeu a si mesmo que só voltaria ali quando realmente pudesse ser útil e ajudar. Quando tivesse na ponta da língua uma resposta para as aflições físicas dos seus iguais.

Foi então que toda essa idéia de estudar medicina apareceu no consciente de Guilbert.

Naquele tempo, o menino estudava na Escola Municipal Ferreira Goulart. O traslado de casa à escola demorava cerca de duas horas à pé. Na volta ele conseguia carona com um carroceiro vizinho e isto o economizava uma hora.

A escola, apesar de não possuir uma boa estrutura física, contava com uma biblioteca razoável e professores que, apesar das diversidades e da baixa remuneração, faziam de tudo para auxiliar àqueles cujo destino poderia ser revertido graças à educação.

Antes deste insight, Guilbert era conhecido na escola como o devorador de livros. Ele não se sobressaía nos esportes e nunca foi muito sociável (possuía alguns poucos e fiéis amigos). Desta forma, encontrou na leitura uma forma de distração instrutiva.

O menino lia tudo. Não descartava um livro por tratar-se de assunto que não possuía conhecimento. Eram estes os livros que mais o deixavam instigado. Leu sobre a História Grega antiga, sobre a evolução da eletrônica, entre outros temas avulsos.

Guilbert então, dotado de sua ânsia em tornar-se médico, pediu auxílio à sua professora de Ciências Humanas. Pediu a esta uma estratégia de estudo, um direcionamento e uma sugestão de matérias a serem estudadas a fundo.

A professora, em um primeiro momento pensou que o pedido do garoto não passava de um impulso passageiro e repentino. Todavia, tendo em vista a insistência dele naquele tema, fez questão de disponibilizar algum tempo de sua ocupada agenda para montar um plano de estudos para o garoto.

Este, disciplinado como era, cumpriu a risca o determinado pela professora. A partir de então foi aumentando por conta própria a carga horária destinada aos estudos e após três anos de determinação e superação diárias, o menino finalmente teve a chance de prestar vestibular.

Infelizmente não passou na primeira tentativa, visto que a concorrência para o curso desejado era monstruosa. Todavia, isto não o abateu hipótese alguma. Algo o dizia para continuar tentando e não desistir.

Foi então que na terceira tentativa Guilbert realizou seu grande sonho.

No dia em que a souberam da aprovação do menino, a cidade inteira entrou em festa. Seu Joaquim fechou a barbearia antes de acabar o expediente para oferecer um arroz de cuxá ao vitorioso.

 O prefeito da cidade, que tinha como foco a reeleição, estendeu faixas de congratulação pela cidade em homenagem ao mais novo universitário da região.

A vó Deolina despedia-se de neto com o coraçãozinho apertado. Ele era sua única companhia, descontando a de seus animais de estimação. As lágrimas rolavam em seu rosto em uma profusão de sentimentos, dentre eles: orgulho, emoção e saudade.

A escola municipal se mobilizou e, antenados nas leis de incentivo à educação, os professores conseguiram inscrever Guilbert em programas governamentais. Este não deveria preocupar-se com despesas no que concerne à moradia e livros.

Quanto à alimentação, lhe seria entregue um cartão com reposição mensal de fundos a fito de que este pudesse desfrutar do almoço saudável e balanceado servido no Restaurante Universitário.

Restava ao jovem arcar com gastos de transporte, vestimenta e alguns outros. Foi então que a cidade em peso, em reunião no coreto, decidiu contribuir com R$ 500,00 (quinhentos reais) mensais para o aprendizado de Guilbert.

O menino homem não sabia como retribuir tamanha gentileza e apreço por sua pessoa. Pensou bastante sobre ter de deixar a avó sozinha e decidiu que era necessário.

Zarpou então rumo a terra desconhecida. A cidade era grande e movimentada de automóveis e pessoas atordoadas. Ficou ligeiramente zonzo nos primeiros dias, porém em pouco tempo adaptou-se à mudança de ares e rotina.

Seu curso, com duração de seis anos, era integral. Quando não tinha aulas, podia ser facilmente encontrado na biblioteca.

Fez amigos na classe e nunca se esqueceu de continuar correspondendo-se com aqueles que em Bacabal deixou. Na verdade era agraciado com inúmeras cartas saudosas que sempre foram devidamente respondidas.

Passaram-se os seis anos de curso e nosso garoto formou-se com honras. Foi o orador da turma e agradeceu imensamente a todos que possibilitaram com que ele ali estivesse. Bacabal em peso compareceu na formatura do Dr. Guilbert.

A festa que começou em Imperatriz terminou em Bacabal em grande estilo: três dias da mais pura alegria maranhense.

Passada a euforia e após demonstrar todo o seu carinho na forma de abraços distribuídos a granel, o menino lembrou-se do impulso que o fez escolher aquela linda profissão e, de imediato, foi admitido como cirurgião-chefe da equipe hospitalar da enfermaria/hospital.

A região festejou imensamente, visto que nunca, na história da cidade, um médico daquela especialidade havia tomado posse. Quando a coisa ficava séria, os doentes deveriam ser imediatamente transferidos para a capital que ficava há pelo menos umas cinco horas - de carro - dali.

Guilbert então, procurando informações sobre a criança que o havia requisitado ajuda da última vez que por ali passara, descobriu, depois de checadas algumas guias de internação, que esta havia se mudado com a família para Bom Lugar, a poucos quilômetros de Bacabal e que hoje possuía vinte anos.

Como uma forma de imprimir significado a toda sua vasta e compensatória jornada acreditou ser a visita àquela criança imprescindível.

De posse do endereço, deslocou-se à cidade e tocou a campainha de uma casa bastante humilde. Atendeu a própria criança, agora uma mulher, com uma vivacidade impressionante no olhar.

Antes que o doutor pudesse pronunciar uma palavra, a garota informou que havia lembrado das feições de Guilbert e da situação em que haviam se deparado.

Após aquele haver lhe contado resumidamente seus honrosos feitos esta reconheceu-os e expressou-se numa frase que ficaria para sempre marcada na lembrança daquele médico:


--- Muito bom. Reconheço seu esforço e determinação e admiro-lhe profundamente. Todavia, lembro que o que mais precisava naquele exato momento era de um abraço e palavras reconfortantes. De coisas que não precisavam ser prescritas em uma receita.