Theodoro Anselmo não voltou para casa no horário usual. Tatiane Márcia, sua esposa, observava o relógio. Igualmente preocupada e enfurecida, pensava: - Se ele não morreu, eu mato! E assim passou aquela noite em claro. O celular de Theodoro Anselmo estava fora de área. Ela criou trinta e oito teorias sobre o que poderia ter acontecido. “Ele deve estar por aí com alguma quenga e perdeu a hora” ou “E se ele tiver sido sequestrado?”. E o dia raiou. Tatiane Márcia foi até a delegacia na companhia de uma de suas cunhadas. Ninguém sabia do paradeiro de seu marido. Ela não pôde ir trabalhar. Seu chefe compreendeu. Procurava por toda a cidade. A última informação que obteve era de que ele havia saído do trabalho normalmente na quarta-feira.
Tatiane Márcia não teve tempo sequer para choro, mas já começava a se desesperar. O dia passou e perfazia vinte e quatro horas do sumiço. E agora somente pensamentos trágicos povoavam sua mente. A noite veio. Terrivelmente cansada e desolada, já não sabia mais o que fazer. Deitou-se estatelada no chão da sala de sua casa e não levantou, estava em choque.
À meia-noite ouviu a campainha tocar. Com um misto de medo e esperança, atendeu a porta. Viu correr longe um rapazote. Uma carta no chão. Abriu. “Encontre-me às dez da manhã no beco onde nos amamos pela primeira vez. Não leve ninguém contigo ou algo ruim poderá me ocorrer. Theodoro Anselmo”.
Tatiane Márcia não era lá uma pessoa muito intuitiva, mas sentia que aquilo não era nada bom. Aquela era a letra de Theodoro Anselmo, com certeza. Isso a tranquilizava, contudo, o mistério envolto naquele recado não lhe trazia a melhor das esperanças. Não avisou a ninguém do ocorrido.
Acordou da noite mal dormida. Aprontou-se. Lá estava Tatiane Márcia relembrando, de uma forma muito dolorosa, o início de sua relação com Theodoro Anselmo. Cada passo, cada rua atravessada em direção ao beco só a deixava mais aflita. Assim que adentrou o local, avistou um envelope vermelho no chão. Sem titubear, abriu. “Estou em perigo. Transfira todas as joias da nossa casa para a casa de sua mãe ou para algum outro lugar de sua confiança. Theodoro Anselmo”.
Perplexa com tal informação, Tatiane Márcia se sentiu insegura. Realmente as joias eram o que possuíam de maior valor na casa. Voltou assustada para seu lar. Adentrou seu quarto e mais que rapidamente digitou a senha do cofre. Pegou todos os anéis e colares e os colocou em uma sacola. Um anel com um enorme diamante chamou-lhe a atenção. Era muito bonito. Aquela joia não lhe pertencia. Ouviu um barulho às suas costas. Virou-se. E ouviu:
Ele se mostrava introspectivo em sua
origem. Quando pequeno gostava de brincar sozinho. Inventava histórias com
diálogos complexos e interpretava todos os personagens. Na escola sempre foi o
menor da classe e talvez por isso não era capaz de olhar nos olhos de ninguém.
Foi desse modo que ele desenvolveu aguçadamente um sentido: a audição.
Ouvia os barulhos mais ínfimos como o
pousar de uma mosca na lâmpada fluorescente ou ainda o sussurrar de uma brisa
leve, mas o que mais o interessava eram os passos.
O garoto era capaz de identificar pessoas
conhecidas apenas pelos passos que davam. Passos cansados, arrastados, alegres,
firmes ou enérgicos forneciam boas pistas sobre a personalidade das pessoas,
pensava ele.
Começou estudando uma pessoa por vez. Tinha
por volta dos dez anos quando, com um caderno brochura, criou uma tabela
simples relacionando comportamento versus passos.
Sua primeira cobaia foi sua mãe. Ela era
uma mulher magra e bem agitada e suas passadas eram para ele inconfundíveis.
Indicavam a mulher ocupada e inquieta que era. Sempre trabalhando e procurando
sustentar a ele e aos seus três irmãos.
O pai os havia trocado por uma mulher bem
mais jovem e a maneira que sua mãe encontrou de esquecê-lo foi trabalhando
incessantemente. Os passos dela eram automáticos e até ritmados: três por
segundo. Eles também não cessavam por longos períodos. Novas varizes brotavam
diariamente devido a isto.
Após a mãe, ele analisou os irmãos e foi
estendendo a pesquisa às pessoas que compunham o seu circulo de
relacionamentos. Analisou tias a tios, primos próximos e distantes e as pessoas
de sua sala de aula. Apesar da distração de seu hobby seu desempenho escolar
não havia diminuído nem um pouco.
Registrou suas anotações e, ao final de um
ano de pesquisa incessante, conseguiu tirar algumas conclusões básicas.
Ele sabia que estas conclusões não eram
regras, mas apenas direcionamentos. Claro que algumas pessoas e alguns passos desviavam-se
dos padrões esperados ou ainda não condiziam com o comportamento de quem os
dava. Todavia, a grande maioria mostrava-se harmônica com o por ele previsto.
O tempo foi passando e seu frisson por
passos permaneceu. Entristecia-se ao ver sua mãe com passos cada vez mais
robóticos. Queria poder ajudá-la. Mas como? Se ele mesmo tinha passos tímidos e
sem vontade? Se ele não enfrentava os próprios problemas ou ainda olhares
alheios?
Apesar de sua baixa autoestima, o garoto
conseguiu encantar uma bela menina de tranças compridas e olhos vivos. Tinha
treze anos quando cedeu aos encantos desta garota de passos largos, destemidos
e ousados.
A partir daí o garoto vivenciou anos
dourados. A vida que era sombria e fria ganhava mais cores e clichês diversos. Continuava
o mesmo: tímido, pouco confiante, mas agora amava e apoiava-se em alguém forte.
Ela era como uma muleta para ele, na qual ele se prendia e sem a qual não sabia viver.
O relacionamento durou exatos nove anos.
Findou-se em razão do intercâmbio de quatro anos desta para a Austrália. Ele,
apesar de imensamente desolado nos primeiros meses de término, entendeu que
aquela pessoa que lhe foi tão querida havia compartilhado momentos incríveis ao
seu lado com o propósito de encorajá-lo a alçar vôos cada vez mais ousados. Suas
passadas indicavam isto desde o início.
Desde o fatídico acontecimento a reflexão
tomou conta de seu ser: Será que os passos permaneceriam os mesmos a todo tempo
da vida? Será que eles, assim como seus donos não são capazes de mudar ou adquirir
novos comportamentos, às vezes até contraditórios aos anteriores? Todas estas
perguntas rodeavam-no a todo o tempo. Empiricamente constatou que são poucas
aquelas pessoas realmente dispostas a mudar.
Isto visto que a mudança é sempre algo
incômodo. Muitas variáveis podem estar em jogo. Muitos preferem não se arriscar
e permanecem numa zona de conforto constante, mesmo que não seja aquela sua
real vontade, mas por ser a via mais simples e menos traumática.
Lembrou-se de sua mãe. É óbvio que ela não
gostaria de permanecer naquela condição. Mas para onde iria? Seria confortável para ela recomeçar? A incerteza e a tensão do novo podem se materializar em uma inércia pacífica e prolongada.
Ele mesmo pensava em mudar. De passos, de
país, de vida. Apesar da convivência da garota ter-lhe feito uma pessoa
melhor, suas convicções permaneciam as mesmas, seus passos arrastados e sem
entusiasmo e as ideias de mudar eram-lhe apenas latentes e não saiam do plano
aristotélico das ideias.
Certo dia, numa noite de sábado, o garoto
demorou a dormir. Teve sonhos pouco compreensíveis e os passos ressoavam em sua
cabeça como sinos. Ao levantar percebeu que seu pé direito encontrava-se um
pouco mais inclinado para fora. Suas passadas tímidas e arrastadas agora eram
mais largas e ousadas. Andava como uma criança que acabara de descobrir a
função dos pés.
Tropeçou por vezes até se firmar. As
pessoas começaram a cumprimentá-lo com um sorriso no rosto. Sua cabeça foi aos
poucos deixando de fitar os pés e passou a acompanhar a linha do horizonte.
As cores que a presença de sua musa traziam retornaram com mais brilho e pompa. Preservara seu hábito de analisar os passos
até o fim de seus dias, mas agora olhava também as pessoas em seus olhos e exalava
autoconfiança.
Por vezes teve medo de retroceder, de
acordar frágil e desconfiado. Não! Seus passos só ganharam mais destreza e
vivacidade e a partir de certo tempo tornaram-se para ele muito naturais.
O garoto então, agora com seus vinte e
três anos, decidiu largar o curso de Engenharia Civil que havia começado por
influência e pressão do pai e decidiu fazer o que lhe aprazia: Fotografia e
Comunicação Visual.
Apesar de feliz pela visível mudança do
filho, sua mãe não mudava o andado. Vivia ocupada demais para conversas triviais
e recusava cafunés. Ele resolveu dedicar-se ao árduo processo de modificar-lhe
os passos e de quebra a maneira de enxergar a vida.
Comprou a ela roupas novas e a presenteou
com um dia no SPA. Os compromissos inadiáveis, segundo ela, foram facilmente
remarcados pelo filho.
Em determinado momento do dia ela
conseguiu se olhar no espelho e perceber que ainda era bonita. Que sua pele,
apesar de não ser um pêssego, estava bem rígida. Orgulhou-se das suas linhas de
expressão e pensou em quantas histórias cada uma delas não guardava.
Saiu de lá leve. Seus passos mais
tranquilos. Ganhou elogios obscenos ao passar em frente a uma construção e riu
prolongadamente como há muito tempo não fazia. Ao chegar em casa abraçou o
filho e sem dizer uma palavra ambos se entenderam e choraram copiosamente. Aquele tinha sido o primeiro e mais importante passo de uma
mudança iminente e certa.
O garoto - agora homem - formou-se com
honras na faculdade e, contratado por uma multinacional, hoje viaja o mundo
fotografando minúcias e detalhes. Casou-se com uma mulher distinta de passos
firmes e convictos e exatamente hoje ensina sua primeira filha a andar.
Você pede o meu perdão
Mas eu não tenho o que perdoar
Eu não sabia que você
Gostava de se enganar
E me enganando fez saber
Como era inútil meu querer
Tanto fiz pra convencer
Que o meu amor
Seria a solução
De todos seus imbróglios e aflições
Uma alma só e dois corações
Mudei meu andado
E o meu jeito de pensar
Comprei aquele velho dicionário popular
Falei bonito e certo
Pra poder te impressionar
Mas pra quê? Mas pra quê?
Eu que cheguei há pouca hora
Não tenho por que me demorar
Afinal sua vida tá bacana
E quem sou eu pra bagunçar
*The term covers any kind of funny nonsense, absurdity without realistic logic. It includes virtually every kind of absurdity from mock logic to fantastic common sense, and a variety of fallacies without rhyme or reason.
Por mais macabro e anti-belo que
isto possa parecer
Tenho coisas a fazer
Afazeres domésticos, escolares,
laborais
Mas faço questão de parar um
tempo
E escrever sobre seus dons
naturais
Seu dom de me fazer rir tão
levemente
De deitar sua mão sobre a minha
De ressuscitar o meu lado Pollyana*
De ver o melhor que a vida tem e
tinha
Acho que paro por aqui
Embora possa discorrer sobre você
páginas a fio
Mas me contenho por causa do meu
coração
Isso porque meu plano de saúde é
AMIL**.
* Pollyana é um livro de Eleanor H. Porter, publicado em 1915. Ele conta a história de uma menina que apesar de todas as dificuldades, como a morte de seus familiares, permanecia contente e altiva praticando um jogo por ela inventado, chamado Jogo do Contente. ** AMIL é uma empresa de planos de saúde e a citei apenas por fins poéticos. Não é minha intenção denegri-la, mas apenas imbuir de humor meu texto.
Thályssa
Kelly tinha quinze anos quando conheceu Protógenes. Ele, com seus trinta e
tantos, precisava de uma companheira para cuidar da casa e procriar. Queria
deixar descendentes. Uma dúzia deles. Foi então que resolveu convidar Thályssa
para com ele morar.
Esta,
por sua vez, ansiava por sair de casa, visto que não mais aguentava ver a
genitora sofrer nas mãos de seu pai que, bêbado e enciumado, surrava-lhe por
todo e qualquer motivo. A mãe ainda não o havia denunciado por medo e receio de
que ele cumprisse as ameaças de morte que constantemente fazia. Pelo mesmo
motivo Thályssa se calava, com pesar em ver a perpetuação da desgraça de sua
mãe.
A
menina, que já não era mais virgem, havia sido deflorada por um tio próximo e
perdera a idealização no amor. Todavia pensava ela que o casamento, ou nesse
caso, o morar junto, a união estável significariam a libertação daquele
ambiente conturbado e, portanto, ansiava por isso com um inocente brilho no
olhar.
A
família não se opôs à união. O pai até gostou, já que necessitaria preocupar-se
de agora em diante apenas com os quatro filhos que, menores, ainda estavam sob
sua responsabilidade. A mãe parecia inicialmente temerosa, mas entregou a filha
nas mãos de Deus e rezava por esta todas as noites, implorando a Ele para que
ela tivesse um destino diferente do seu.
Chegou
o dia da mudança. As malas, surradas, já estavam abarrotadas de roupas,
bijuterias e algumas lembranças da infância não tão distante. Um almoço foi
organizado pelo pai da moça como forma de celebrar a união do casal, além de um
agradecimento implícito à Protógenes por retirá-la de sua asa, de sua responsabilidade.
A
menina-moça sorriu e dançou naquele almoço que congregou a todos da rua.
Fartou-se da comida da mãe e, ao vê-la, percebeu que a deixaria ao relento, nas
mãos daquele marido truculento e incompreensivo. Por um momento pensou em
desistir, mas não o fez. Assim como a mãe, a menina reza por aquela todos os
dias, e pede pela felicidade e harmonia daquele lar.
Os
irmãos despediram-se chorosos da irmã, mesmo sabendo que ela não se mudaria
para tão longe. Bastavam dois ônibus para que pudessem se encontrar. Mesmo
assim, abraçaram-na intensamente.
A
recém-juntada partiu com seu companheiro e preferiu não olhar para trás.
Enxugava uma lágrima que teimava em escorrer ao mesmo tempo em que estampava um
sorriso tímido em seu rosto rosáceo.
Ela
não sabia muita coisa sobre seu amásio. Ele era amigo de seu pai e trabalhava
com este no ramo da construção civil. Foi numa festa de família que foram
apresentados por aquele e começaram a se encontrar ocasionalmente. Sabia pouco:
que ele já havia se casado anteriormente, que torcia para o Fluminense e que
veio do Tocantins. Sabia ainda que ele tinha problema nos rins. Veio descobrir
mais com a convivência diária.
Apesar
do pouco estudo, Protógenes se atrevia a escrever uns pequenos e prosaicos
versos à amada. Entregava-os junto com uma caixa de bombom da Erlan em datas
comemorativas.
Ele
bebia socialmente e não era dado à farra até altas horas. Também não fazia uso
de tóxicos de nenhuma espécie. Não tinha religião, mas respeitava a fé católica
fervorosa da parceira. Tinha como defeito a jogatina exacerbada. Apostava no
bicho sempre que tinha dinheiro. Apesar de ganhar às vezes, perdia em proporção
bem maior. Também não era calmo e, com o pavio curto, estressava-se por
qualquer besteira, principalmente por ciúmes de Thályssa. Nesse ponto,
assemelhava-se ao seu pai.
Os
primeiros meses de relacionamento foram tranquilos e seguidos de uma gravidez
benquista por ambos. Thályssa fazia bicos como manicure e passadeira, além de
vender produtos da Avon para suas clientes. Os bicos eram conciliados
maestosamente com a arrumação da casa e o zelo com o marido, principalmente nos
períodos de crise renal deste.
A
menina, que ganhava e guardava algumas de suas economias, sentiu o gosto da
independência da qual sua mãe sempre a incentivou conquistar. O que ganhava não
era muito, mas como ainda estava nova, poderia fazer cursos e se
profissionalizar.
Visitava
a mãe aos finais de semana e percebia os hematomas desta cobertos porcamente
com uma base e pó compacto com os quais a havia presenteado. Sentiu pena e
pensou em levá-la à delegacia para prestarem queixa.
Todavia,
ela ainda não tinha condições de acolher sua mãe em sua residência e o pai
repetia a todos que quisessem ouvir que não deixaria a residência do casal em hipótese
alguma. Afirmava que mataria aquele que o tentasse fazer.
Isto
apenas a impulsionou a buscar a independência ampla e irrestrita a fim de que
pudesse cuidar de si, dos futuros filhos e de sua genitora caso o marido se
transformasse no reflexo de seu pai. Foi então que, vendo o jornal, soube de um
curso gratuito de costura e decidiu fazê-lo.
O
amásio, cujo consentimento não havia sido requisitado, sentiu-se irritado de
início, porém concordou com a escolha da garota sem, contudo, apoiá-la. Passados
quatro meses de curso, a menina, amadurecida pela vida, terminou-o e foi
admitida a título de experiência em uma confecção.
O
novo trabalho ocupava boa parte de seu dia. O restante dele era preenchido
pelos deveres domésticos de manutenção do lar. O tempo para o cônjuge era
ínfimo. Ele, que também trabalhava de sol a sol, chegava em casa e encontrava a
mulher abatida e sem ânimo nem para com ele conversar.
Passado
o primeiro ano da união, com a primeira filha nascida e outro por vir, o
relacionamento foi se desgastando e caindo na rotina. Os poemas que já eram
ralos, agora nem mais existiam. Thályssa, que se arrumava bastante às
sextas-feiras para ir à bodega com Protógenes, agora nem isso o fazia.
Deixava-o ir sozinho e não importava se este voltava tarde.
A
bebida tornou-se a companheira das noites do velho-moço. Apesar da constante
formação de pedras nos rins, Protógenes não mais resistia a uma tulipa de
cerveja bem gelada para estancar suas aflições. Encontrava nela a cumplicidade
que sua senhora não fazia questão de suprir.
Em
certa data, ouviu no noticiário, na televisão do bar, que o álcool inibe um
hormônio antidiurético produzido pelo organismo, chamado vasopressina. Que esse
hormônio faz o corpo reabsorver certa quantidade de água existente na urina,
impedindo a desidratação. O médico da reportagem explicou que, com o álcool na
corrente sanguínea, toda a água que seria reaproveitada é excretada,
facilitando a formação de microcristais nos rins.
Apesar
de não entender boa parte da reportagem, demonstrou preocupação pela frase
exarada pelo médico. Ainda mais porque ele já era predisposto à formação de
cálculos renais. A preocupação passou com o primeiro gole de cerveja que
ingeriu e foi diminuindo com os subsequentes.
Nesta
data, Protógenes chegou em casa extremamente alterado e proferiu inúmeros
xingamentos à pessoa de Thályssa. Disse haver se arrependido de tê-la trazido a
morar com ele e que só tormentos havia trazido à sua vida. Que ela não merecia
o homem que ele é e que, se fosse como seu pai, já a teria esmurrado à beira da
morte tamanha insolência.
Logo
após dito isso, rolou de dor no carpete da sala. Os rins atacavam novamente. A
menina-mulher pensou em não socorrê-lo. Pensou em arrumar as malas e seguir seu
rumo juntamente com a filha recém-nascida. Mas algo a dizia para ficar.
Teimou
em aceitar aquela ideia e, por fim, preparou um chá de quebra pedras para o
companheiro. Este a prometeu que daquele
dia em diante cuidaria melhor de sua saúde. Porém não o fez. Continuou na
jogatina desenfreada potencializada pelo uso do álcool. Dizia que a bebida
aumentava sua sorte.
Chegava
em casa e xingava a vítima de nomes cada vez mais sujos. Certo dia, tamanha a
bebedeira, desferiu um tapa no rosto desta. Logo depois destes picos de
agressividade e estresse o companheiro reclamava cada vez mais frequentemente
de dores na região dos rins.
A
mulher-vítima lembrou-se dos hematomas de sua mãe cuja maquiagem não mais os
encobria. Escondeu a vermelhidão em seu rosto e fez com que o autor das agressões,
que se recusava a procurar um médico, ingerisse bastante liquido.
Cuidava
da casa, zelava de seus filhos e costurava desenfreadamente. Sua máquina de
costura não parava um segundo. À noite cumpria sua obrigação conjugal
deitando-se com o marido, que a cada dia mais ébrio era mais agressivo e menos
carinhoso.
A
máquina de costura trabalhava barulhenta às madrugadas. Felizmente o sono do
bêbado era pesado. O turno na empresa havia sido dobrado e ela conseguira uma
promoção. Passou a ganhar consideravelmente melhor.
As
dores vinham intensas agora diariamente. A bebida aliviava e encaminhava-o ao
seu fim. Apesar da doença o deixar fraco, isto não o impedia de levantar a mão
à mulher e humilhá-la. Ela lhe limpava o vômito alcoólico e preparava-lhe o banho.
Costurava
e as lágrimas caiam sobre a lã, a seda e o cetim. Enxugou-as e acelerou a
finalização de um cós. Ao amanhecer ligou para a mãe e ambas trocaram tristes
novidades.
Mais
um ano se passou. Thályssa assistiu à virada do ano na Globo e dormiu. Foi
acordada pelo amásio que, bêbado como de costume, reclamava-lhe de dores
agudas. Não mais conseguiu dormir e então costurou até o nascer do sol.
Arrumou
sua casa pela última vez. Pegou suas economias, seus filhos, algumas roupas e
suas lembranças da não tão longínqua, mas saudosa infância. Passou na casa de
sua mãe e ambas partiram rumo a local incerto e não sabido.
Ao
acordar, Protógenes encontrou um chá de quebra pedras morno.
Guilbert.
Esse era um nome que todos na pacata cidade de Bacabal conheciam bem. Não havia
viválma na cidade que não enchesse os olhos de lágrimas quando o nome do garoto
era pronunciado. Lágrimas orgulhosas, de afeto e admiração.
Também
pudera, numa cidade em que mais de setenta por cento da população não sabia
assinar o próprio nome, o menino Guilbert, persistente que era, conseguiu
passar em um vestibular concorrido para Medicina.
Todos
na cidade colaboravam para a formação do menino prodígio. Seu Manoel tirava do
pão de todo dia para poder contribuir. Dona Josefa dobrava o turno na venda de
tapioca para inteirar o auxílio do mês. A cidade inteira se mobilizava nesta
causa tão sublime.
Isto
porque o menino vivia com sua avó materna, uma senhorinha de oitenta e poucos
anos que tirava seu sustento da aposentadoria do marido, que em seus tempos
áureos havia sido militar. Deste modo, dona Deolina, apesar de ansiar pelo
sucesso do neto, não poderia ajudá-lo a realizar seu grande sonho.
Tudo
começou quando Guilbert, por um acaso, passou em frente à enfermaria/hospital
da cidade. O menino, à época com quatorze anos de idade, fixou o olhar em uma
criança abatida, de idade próxima à dele que lhe implorou por socorro.
Socorro?
Mas como aquele menino poderia ajudar? Ele não possuía conhecimentos médicos.
Ele era só uma criança.
O
menino permaneceu inerte por alguns minutos. Parecia tentar processar a
informação e procurar uma resposta plausível para o apelo que o havia sido
feito. Nada vinha à sua mente.
Esgotada
a sua energia mental, o menino correu daquele local o mais rápido que pôde e
prometeu a si mesmo que só voltaria ali quando realmente pudesse ser útil e
ajudar. Quando tivesse na ponta da língua uma resposta para as aflições físicas
dos seus iguais.
Foi
então que toda essa idéia de estudar medicina apareceu no consciente de
Guilbert.
Naquele
tempo, o menino estudava na Escola Municipal Ferreira Goulart. O traslado de
casa à escola demorava cerca de duas horas à pé. Na volta ele conseguia carona
com um carroceiro vizinho e isto o economizava uma hora.
A
escola, apesar de não possuir uma boa estrutura física, contava com uma
biblioteca razoável e professores que, apesar das diversidades e da baixa
remuneração, faziam de tudo para auxiliar àqueles cujo destino poderia ser
revertido graças à educação.
Antes
deste insight, Guilbert era conhecido na escola como o devorador de livros. Ele
não se sobressaía nos esportes e nunca foi muito sociável (possuía alguns
poucos e fiéis amigos). Desta forma, encontrou na leitura uma forma de
distração instrutiva.
O
menino lia tudo. Não descartava um livro por tratar-se de assunto que não
possuía conhecimento. Eram estes os livros que mais o deixavam instigado. Leu
sobre a História Grega antiga, sobre a evolução da eletrônica, entre outros
temas avulsos.
Guilbert
então, dotado de sua ânsia em tornar-se médico, pediu auxílio à sua professora
de Ciências Humanas. Pediu a esta uma estratégia de estudo, um direcionamento e
uma sugestão de matérias a serem estudadas a fundo.
A
professora, em um primeiro momento pensou que o pedido do garoto não passava de
um impulso passageiro e repentino. Todavia, tendo em vista a insistência dele
naquele tema, fez questão de disponibilizar algum tempo de sua ocupada agenda
para montar um plano de estudos para o garoto.
Este,
disciplinado como era, cumpriu a risca o determinado pela professora. A partir
de então foi aumentando por conta própria a carga horária destinada aos estudos
e após três anos de determinação e superação diárias, o menino finalmente teve
a chance de prestar vestibular.
Infelizmente
não passou na primeira tentativa, visto que a concorrência para o curso
desejado era monstruosa. Todavia, isto não o abateu hipótese alguma. Algo o
dizia para continuar tentando e não desistir.
Foi
então que na terceira tentativa Guilbert realizou seu grande sonho.
No
dia em que a souberam da aprovação do menino, a cidade inteira entrou em festa.
Seu Joaquim fechou a barbearia antes de acabar o expediente para oferecer um
arroz de cuxá ao vitorioso.
O prefeito da cidade, que tinha como foco a
reeleição, estendeu faixas de congratulação pela cidade em homenagem ao mais
novo universitário da região.
A
vó Deolina despedia-se de neto com o coraçãozinho apertado. Ele era sua única
companhia, descontando a de seus animais de estimação. As lágrimas rolavam em
seu rosto em uma profusão de sentimentos, dentre eles: orgulho, emoção e
saudade.
A
escola municipal se mobilizou e, antenados nas leis de incentivo à educação, os
professores conseguiram inscrever Guilbert em programas governamentais. Este
não deveria preocupar-se com despesas no que concerne à moradia e livros.
Quanto
à alimentação, lhe seria entregue um cartão com reposição mensal de fundos a
fito de que este pudesse desfrutar do almoço saudável e balanceado servido no
Restaurante Universitário.
Restava
ao jovem arcar com gastos de transporte, vestimenta e alguns outros. Foi então
que a cidade em peso, em reunião no coreto, decidiu contribuir com R$ 500,00
(quinhentos reais) mensais para o aprendizado de Guilbert.
O
menino homem não sabia como retribuir tamanha gentileza e apreço por sua pessoa.
Pensou bastante sobre ter de deixar a avó sozinha e decidiu que era necessário.
Zarpou
então rumo a terra desconhecida. A cidade era grande e movimentada de
automóveis e pessoas atordoadas. Ficou ligeiramente zonzo nos primeiros dias,
porém em pouco tempo adaptou-se à mudança de ares e rotina.
Seu
curso, com duração de seis anos, era integral. Quando não tinha aulas, podia
ser facilmente encontrado na biblioteca.
Fez
amigos na classe e nunca se esqueceu de continuar correspondendo-se com aqueles
que em Bacabal deixou. Na verdade era agraciado com inúmeras cartas saudosas
que sempre foram devidamente respondidas.
Passaram-se
os seis anos de curso e nosso garoto formou-se com honras. Foi o orador da
turma e agradeceu imensamente a todos que possibilitaram com que ele ali
estivesse. Bacabal em peso compareceu na formatura do Dr. Guilbert.
A
festa que começou em Imperatriz terminou em Bacabal em grande estilo: três dias
da mais pura alegria maranhense.
Passada
a euforia e após demonstrar todo o seu carinho na forma de abraços distribuídos
a granel, o menino lembrou-se do impulso que o fez escolher aquela linda
profissão e, de imediato, foi admitido como cirurgião-chefe da equipe
hospitalar da enfermaria/hospital.
A
região festejou imensamente, visto que nunca, na história da cidade, um médico
daquela especialidade havia tomado posse. Quando a coisa ficava séria, os
doentes deveriam ser imediatamente transferidos para a capital que ficava há
pelo menos umas cinco horas - de carro - dali.
Guilbert
então, procurando informações sobre a criança que o havia requisitado ajuda da
última vez que por ali passara, descobriu, depois de checadas algumas guias de
internação, que esta havia se mudado com a família para Bom Lugar, a poucos
quilômetros de Bacabal e que hoje possuía vinte anos.
Como
uma forma de imprimir significado a toda sua vasta e compensatória jornada
acreditou ser a visita àquela criança imprescindível.
De
posse do endereço, deslocou-se à cidade e tocou a campainha de uma casa
bastante humilde. Atendeu a própria criança, agora uma mulher, com uma
vivacidade impressionante no olhar.
Antes
que o doutor pudesse pronunciar uma palavra, a garota informou que havia
lembrado das feições de Guilbert e da situação em que haviam se deparado.
Após
aquele haver lhe contado resumidamente seus honrosos feitos esta reconheceu-os
e expressou-se numa frase que ficaria para sempre marcada na lembrança daquele
médico:
---
Muito bom. Reconheço seu esforço e determinação e admiro-lhe profundamente.
Todavia, lembro que o que mais precisava naquele exato momento era de um abraço
e palavras reconfortantes. De coisas que não precisavam ser prescritas em uma
receita.