segunda-feira, 24 de março de 2014

Retire aqui a sua senha

             Loira, de estatura baixa, velha e gorda. Foi essa a imagem que aquela senhora quis passar a todos que se encontravam no banco. Chegou, pegou a sua senha no atendimento simples. Recusava-se a viver a vida de modo preferencial.

            Por coincidência ou obra do destino – para quem acredita nessas coisas - sentei-me ao seu lado e por meio de um sorriso doce que sempre carrego em caso de emergências – e que os libero sem nem mesmo perceber- acredito que ganhei a afeição e confiança daquela senhora de semblante irrequieto. Todavia nenhum diálogo havia sido ainda travado.

            Inicialmente queria apenas que o tempo voasse e que as pessoas cujas senhas me eram anteriores houvessem todas desistido da espera medianamente longa e deixassem o caminho livre apenas para mim. Isso claramente não ocorreu. Então me restou apenas observar a minha volta.

            Uma criança agitada circulava as cadeiras nas quais encontrávamos sentadas e encarava a senhora ao meu lado com um olhar de cumplicidade e carinho. Ela, por sua vez, o ignorava friamente. Foi aí que resolvi intervir.


            Comecei com uma constatação genérica, típica conversa de elevador:

            - Que criança mais bonita, não? Agitada como só!

            Bastaram estas palavras para que o assunto fluísse. E o tempo lento passou ligeiro. Começou contando-me que ainda não tivera netos e que desejava tê-los. Sua filha casou-se logo após terminar a faculdade e lá se vão quatro anos da união e nada de procriar.

            Titubeia. Pensando bem, o casamento deve ser bem aproveitado pelo casal antes que cheguem os filhos. Ademais, sua filha, uma princesa de corpo escultural, não pode deixar que um filho deforme sua estrutura corporal geneticamente herdada (genes majoritariamente maternos).

            Além de tudo o marido da moça é bem pé no chão. Pé no chão até demais. Quer filhos quando mais velho for. Quer aproveitar a mocidade e desfrutar das pernas torneadas de sua mulher.

            Quanto ao filho, este mais velho que a menina, pareceu-me pela sua descrição um típico bon-vivant. Tem um emprego razoável que o permite curtir baladas e vive ainda assim na casa dos pais. Não atinou em casar-se e muito menos ter filhos.

            Voltou-se posteriormente a ela. Que havia sido uma jovem linda e ativa. Os traços e os olhos verdes não a deixam mentir. Casou-se e evitou a gravidez por dois anos. Tinha lá seus métodos. Aproveitou o casamento e logo após teve os filhos.

            Ela sempre trabalhara fora. Era comerciante por profissão. Ficou em casa apenas na época de cuidar de seus filhos, mas logo que estes se encontravam crescidos, tornava ela ao batente. Ademais, esculpia por lazer.

            Atualmente trabalhava em uma empresa de amigos. Este estabelecimento, que passava por reestruturação financeira, cortou gastos e há quatro dias ela havia sido demitida. E agora? O que iria ela fazer?

            - O comércio é para os jovens. Gente velha não se encaixa nessa lógica. São lentos e não atendem com a devida sagacidade.

            Ela sabia que seria difícil encontrar outro emprego em sua faixa etária. Logo ela, que a vida toda havia vivido na agitação das ruas. Vendendo roupas, sapatos, jóias importadas.

            Dizia-me que quando sozinha em casa batia-lhe uma tristeza profunda. Um vazio imenso. Queriam paralisar compulsoriamente uma mulher que sempre trabalhara e que se aprazia disso. Não nasceu ela para viver enfurnada em casa.

            Não tinha experiência em nenhuma outra área e para complicar um pouco mais a situação, deixou de contribuir à previdência nas ocasiões em que trabalhava como autônoma, o que a impediu de aposentar-se de imediato.

            O filho-rêmora, preocupado com a mãe e sem querer lhe prover netos, teve a inovadora ideia de comprar-lhe um cachorro. Daqueles que de tão feios são até bonitos.

            Mas ela não iria amansar sua ânsia por produzir e ser útil por uma criaturinha fofa daquela. Não. Além do mais, o marido não iria gostar nem um pouco desta novidade. Mas o cachorro era uma mistura de raças nobres e não poderia ser descartado assim de cara, na lata.

            Talvez ficasse por lá até que o filho arranjasse outro lugar para ele. Mas disso não passa. Até que uma coleira verde cairia bem com suas manchas. Mas depois disso ele deveria ir embora. Mostrou-me as fotos do bicho no celular.

            - A054.

            Foi finalmente atendida. Independente. Autônoma. Resolveu seus problemas assim como nos tempos de outrora.

            Mas, segundo a mesma, a velhice chega para todos. E chega ela com gosto de gás. Enquanto você menos esperar deparar-se-á com limitações que antes não existiam.



            A senhora, cuja idade havia retirado-lhe o ânimo e o brilho dos olhos, finalizou seu atendimento e dirigiu-se à porta giratória sem olhar para trás. Vi através dos vidros que atravessara a rua em direção a um Pet Shop na esquina.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mit Zucker mit Zuneigung

Não entendo o que me fala
Faço esforço, persisto, tento
Fico tonta e a onda quebra
Me deixando sem alento

Coro com suas risadas
E suas piadas indecorosas
Decoro todas suas frases feitas
E em coro entoamos canções melosas

Mas ao sair não se despede
E também não diz quando volta
Notícias? Nem mesmo à mãe
Diz que é livre. Que nada o impede

E eu espero que ele volte
Não seria eu se não esperasse
E trago comigo o meu perfume 
Em um frasco de pouco volume 
E sem maquiagem na face

E quando ele volta é uma alegria
Deixo as perguntas para outra ocasião
E eu me agarro na incerteza feliz
Do talvez, do sim ou do não

 





domingo, 2 de março de 2014

Lavoisier aplicado à cultura


Há algum tempo venho percebendo que sutilmente incorporo detalhes de filmes e livros que leio à minha personalidade e meus gostos e os modifico de acordo com os meus interesses ou vontades. E com o passar dos tempos e das preocupações diárias não me lembro bem de onde tirei esta ou aquela mania.

Falo primeiramente do filme (metalinguístico) que me fez começar a raciocinar sobre o referido assunto: o Fabuloso Destino de Amelie Poulain. Já o assisti algumas vezes e todas as vezes que o faço, me vem à memória as coisas simples que faço, gosto (ou não) e que, por isso, me caracterizam.

Tentarei enumerá-las de maneira exemplificativa:

1- Gosto de bolo de trigo com mortadela e adoro bolos de aniversário com muito recheio;
2- Me incomoda quando o vapor da pamonha quente me embaça os óculos;
3- Gosto de ouvir histórias e não me importo se as mesmas já foram contadas;
4- Gosto de amassar massas;
5- Prefiro comer o recheio da bolacha primeiro;
6- Assisto a documentários de pessoas que não são muito exaltadas pelos meios de comunicação e procuro entender qual foi a contribuição dela para a sociedade (ou apenas para sua própria vida);
7- Gosto de roupas e calçados que não me apertem ou incomodem;
8- Não gosto de suco de caju, vitamina e misto quente.

Estas são algumas de minhas características que me fazem a pessoa que sou. E perceber isto é uma maneira de se conhecer e modificar aquilo que você gostaria que fosse modificado. 

Muitas vezes com as preocupações eleitas mais urgentes, deixamos de nos deliciar da nossa simplicidade assim como das pessoas que nos cercam. E, em minha singela opinião, a robotização que a vida nos impõe faz com que nos tornemos insensíveis aos detalhes. Porém estes, hora ou outra, merecem destaque. 

Já o filme de animação “Mary e Max” fez-me refletir sobre algo que eu já vinha colecionando: palavras preferidas. Seja pela sua sonoridade ou pelo seu significado, algumas palavras me chamam a atenção de maneira diferente das que uso em meu vocabulário diário.

Apesar de preferir estas palavras às demais, não as substituo em toda oportunidade que posso. Guardo-as comigo, como um tesouro, um achado. As ocasiões em que são expelidas devem ser especiais (e significativas).

São algumas delas: altaneira, cabrocha, malemolência, quiproquó, celeste, chorumela, lânguido, olvidar, cabreiro, matreiro, desarvorado, engambelar, soslaio.

Passando para os livros, foi somente quando reli a obra de Jostein Gaarder denominada O dia de Curinga que percebi de onde havia eu adquirido a mania de ler palavras ao contrário.

Minha alegria é maior quando alguma palavra, quando lida ao contrário, torna-se imbuída de algum significado. Por exemplo, descobri que ARGOS, a denominação de uma empresa ao contrário é SOGRA. E o sobrenome RAMOS ao contrário é SOMAR. 

É nestes momentos em que me sinto uma detetive investigativa que descobrirá a peça-chave para a resolução de determinado mistério apenas por inverter a ordem dessa ou daquela palavra.

Às vezes vou mais além: procuro anagramas.  Inverto a ordem das palavras, mexo na posição de algumas letras até descobrir alguma palavra com significação. Reinventando aquilo que adquiri com a leitura de uma obra da qual havia esquecido do enredo principal.

Mas é aí que vem a dúvida: Será que estes meus hábitos um tanto peculiares foram influenciados pelo que me cerca ou será que eles são anteriores e foram reforçados de alguma forma por estes? 

O tempo e a memória falha me impedem de responder a esta questão de modo seguro e certo. 

Mas isto não importa. A ordem dos fatores nesse caso não altera o resultado. O fato é que a leitura e as fontes midiáticas de alguma forma ajudam a incorporar aquilo que sou e que me torna uma pessoa única. Não especial, ao revés, nada especial, já que todos são diferentes e estão envoltos em suas significações próprias.

Rememorando o teorema do químico Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, mas tudo se transforma.

Assim, adequando o teorema e interpretando-o a meu favor, sinto-me constantemente agraciada pelas intervenções da arte em minhas modificações constantes, sejam elas pequenas, minuciosas ou expressivas.

Por fim, espero poder cada vez mais agregar ao meu eu detalhes ou hábitos que possam ajudar a me definir e a me encontrar. Que possam me tornar uma pessoa multifacetada e ávida à descoberta do novo. Sempre.