Loira,
de estatura baixa, velha e gorda. Foi essa a imagem que aquela senhora quis
passar a todos que se encontravam no banco. Chegou, pegou a sua senha no
atendimento simples. Recusava-se a viver a vida de modo preferencial.
Por coincidência ou obra do destino
– para quem acredita nessas coisas - sentei-me ao seu lado e por meio de um
sorriso doce que sempre carrego em caso de emergências – e que os libero sem
nem mesmo perceber- acredito que ganhei a afeição e confiança daquela senhora
de semblante irrequieto. Todavia nenhum diálogo havia sido ainda travado.
Inicialmente queria apenas que o
tempo voasse e que as pessoas cujas senhas me eram anteriores houvessem todas
desistido da espera medianamente longa e deixassem o caminho livre apenas para
mim. Isso claramente não ocorreu. Então me restou apenas observar a minha
volta.
Uma criança agitada circulava as
cadeiras nas quais encontrávamos sentadas e encarava a senhora ao meu lado com
um olhar de cumplicidade e carinho. Ela, por sua vez, o ignorava friamente. Foi
aí que resolvi intervir.
Comecei com uma constatação
genérica, típica conversa de elevador:
- Que criança mais bonita, não?
Agitada como só!
Bastaram estas palavras para que o
assunto fluísse. E o tempo lento passou ligeiro. Começou contando-me que ainda
não tivera netos e que desejava tê-los. Sua filha casou-se logo após terminar a
faculdade e lá se vão quatro anos da união e nada de procriar.
Titubeia. Pensando bem, o casamento
deve ser bem aproveitado pelo casal antes que cheguem os filhos. Ademais, sua
filha, uma princesa de corpo escultural, não pode deixar que um filho deforme
sua estrutura corporal geneticamente herdada (genes majoritariamente maternos).
Além de tudo o marido da moça é bem
pé no chão. Pé no chão até demais. Quer filhos quando mais velho for. Quer
aproveitar a mocidade e desfrutar das pernas torneadas de sua mulher.
Quanto ao filho, este mais velho que
a menina, pareceu-me pela sua descrição um típico bon-vivant. Tem um emprego
razoável que o permite curtir baladas e vive ainda assim na casa dos pais. Não
atinou em casar-se e muito menos ter filhos.
Voltou-se posteriormente a ela. Que
havia sido uma jovem linda e ativa. Os traços e os olhos verdes não a deixam
mentir. Casou-se e evitou a gravidez por dois anos. Tinha lá seus métodos.
Aproveitou o casamento e logo após teve os filhos.
Ela sempre trabalhara fora. Era
comerciante por profissão. Ficou em casa apenas na época de cuidar de seus
filhos, mas logo que estes se encontravam crescidos, tornava ela ao batente.
Ademais, esculpia por lazer.
Atualmente trabalhava em uma empresa
de amigos. Este estabelecimento, que passava por reestruturação financeira,
cortou gastos e há quatro dias ela havia sido demitida. E agora? O que iria ela
fazer?
- O comércio é para os jovens. Gente
velha não se encaixa nessa lógica. São lentos e não atendem com a devida
sagacidade.
Ela sabia que seria difícil
encontrar outro emprego em sua faixa etária. Logo ela, que a vida toda havia
vivido na agitação das ruas. Vendendo roupas, sapatos, jóias importadas.
Dizia-me que quando sozinha em casa
batia-lhe uma tristeza profunda. Um vazio imenso. Queriam paralisar
compulsoriamente uma mulher que sempre trabalhara e que se aprazia disso. Não
nasceu ela para viver enfurnada em casa.
Não tinha experiência em nenhuma
outra área e para complicar um pouco mais a situação, deixou de contribuir à
previdência nas ocasiões em que trabalhava como autônoma, o que a impediu de
aposentar-se de imediato.
O filho-rêmora, preocupado com a mãe
e sem querer lhe prover netos, teve a inovadora ideia de comprar-lhe um
cachorro. Daqueles que de tão feios são até bonitos.
Mas ela não iria amansar sua ânsia
por produzir e ser útil por uma criaturinha fofa daquela. Não. Além do mais, o
marido não iria gostar nem um pouco desta novidade. Mas o cachorro era uma
mistura de raças nobres e não poderia ser descartado assim de cara, na lata.
Talvez ficasse por lá até que o
filho arranjasse outro lugar para ele. Mas disso não passa. Até que uma coleira
verde cairia bem com suas manchas. Mas depois disso ele deveria ir embora.
Mostrou-me as fotos do bicho no celular.
- A054.
Foi finalmente atendida.
Independente. Autônoma. Resolveu seus problemas assim como nos tempos de
outrora.
Mas, segundo a mesma, a velhice
chega para todos. E chega ela com gosto de gás. Enquanto você menos esperar
deparar-se-á com limitações que antes não existiam.
A senhora, cuja idade havia retirado-lhe
o ânimo e o brilho dos olhos, finalizou seu atendimento e dirigiu-se à porta
giratória sem olhar para trás. Vi através dos vidros que atravessara a rua em
direção a um Pet Shop na esquina.