quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Texto de autoria de um grande amigo

Theodoro Anselmo não voltou para casa no horário usual. Tatiane Márcia, sua esposa, observava o relógio. Igualmente preocupada e enfurecida, pensava:

- Se ele não morreu, eu mato!

E assim passou aquela noite em claro. O celular de Theodoro Anselmo estava fora de área. Ela criou trinta e oito teorias sobre o que poderia ter acontecido. “Ele deve estar por aí com alguma quenga e perdeu a hora” ou “E se ele tiver sido sequestrado?”. E o dia raiou. Tatiane Márcia foi até a delegacia na companhia de uma de suas cunhadas. Ninguém sabia do paradeiro de seu marido. Ela não pôde ir trabalhar. Seu chefe compreendeu. Procurava por toda a cidade. A última informação que obteve era de que ele havia saído do trabalho normalmente na quarta-feira.

Tatiane Márcia não teve tempo sequer para choro, mas já começava a se desesperar. O dia passou e perfazia vinte e quatro horas do sumiço. E agora somente pensamentos trágicos povoavam sua mente. A noite veio. Terrivelmente cansada e desolada, já não sabia mais o que fazer. Deitou-se estatelada no chão da sala de sua casa e não levantou, estava em choque.

À meia-noite ouviu a campainha tocar. Com um misto de medo e esperança, atendeu a porta. Viu correr longe um rapazote. Uma carta no chão. Abriu. “Encontre-me às dez da manhã no beco onde nos amamos pela primeira vez. Não leve ninguém contigo ou algo ruim poderá me ocorrer. Theodoro Anselmo”.

Tatiane Márcia não era lá uma pessoa muito intuitiva, mas sentia que aquilo não era nada bom. Aquela era a letra de Theodoro Anselmo, com certeza. Isso a tranquilizava, contudo, o mistério envolto naquele recado não lhe trazia a melhor das esperanças. Não avisou a ninguém do ocorrido.

Acordou da noite mal dormida. Aprontou-se. Lá estava Tatiane Márcia relembrando, de uma forma muito dolorosa, o início de sua relação com Theodoro Anselmo. Cada passo, cada rua atravessada em direção ao beco só a deixava mais aflita. Assim que adentrou o local, avistou um envelope vermelho no chão. Sem titubear, abriu. “Estou em perigo. Transfira todas as joias da nossa casa para a casa de sua mãe ou para algum outro lugar de sua confiança. Theodoro Anselmo”.

Perplexa com tal informação, Tatiane Márcia se sentiu insegura. Realmente as joias eram o que possuíam de maior valor na casa. Voltou assustada para seu lar. Adentrou seu quarto e mais que rapidamente digitou a senha do cofre. Pegou todos os anéis e colares e os colocou em uma sacola. Um anel com um enorme diamante chamou-lhe a atenção. Era muito bonito. Aquela joia não lhe pertencia. Ouviu um barulho às suas costas. Virou-se. E ouviu:

- Gostou da surpresa?

Sampaiomdc

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Salão dos passos descobertos

Ele se mostrava introspectivo em sua origem. Quando pequeno gostava de brincar sozinho. Inventava histórias com diálogos complexos e interpretava todos os personagens. Na escola sempre foi o menor da classe e talvez por isso não era capaz de olhar nos olhos de ninguém. Foi desse modo que ele desenvolveu aguçadamente um sentido: a audição.

Ouvia os barulhos mais ínfimos como o pousar de uma mosca na lâmpada fluorescente ou ainda o sussurrar de uma brisa leve, mas o que mais o interessava eram os passos.

O garoto era capaz de identificar pessoas conhecidas apenas pelos passos que davam. Passos cansados, arrastados, alegres, firmes ou enérgicos forneciam boas pistas sobre a personalidade das pessoas, pensava ele.

Começou estudando uma pessoa por vez. Tinha por volta dos dez anos quando, com um caderno brochura, criou uma tabela simples relacionando comportamento versus passos.

Sua primeira cobaia foi sua mãe. Ela era uma mulher magra e bem agitada e suas passadas eram para ele inconfundíveis. Indicavam a mulher ocupada e inquieta que era. Sempre trabalhando e procurando sustentar a ele e aos seus três irmãos.

O pai os havia trocado por uma mulher bem mais jovem e a maneira que sua mãe encontrou de esquecê-lo foi trabalhando incessantemente. Os passos dela eram automáticos e até ritmados: três por segundo. Eles também não cessavam por longos períodos. Novas varizes brotavam diariamente devido a isto.

Após a mãe, ele analisou os irmãos e foi estendendo a pesquisa às pessoas que compunham o seu circulo de relacionamentos. Analisou tias a tios, primos próximos e distantes e as pessoas de sua sala de aula. Apesar da distração de seu hobby seu desempenho escolar não havia diminuído nem um pouco.

Registrou suas anotações e, ao final de um ano de pesquisa incessante, conseguiu tirar algumas conclusões básicas.

Ele sabia que estas conclusões não eram regras, mas apenas direcionamentos. Claro que algumas pessoas e alguns passos desviavam-se dos padrões esperados ou ainda não condiziam com o comportamento de quem os dava. Todavia, a grande maioria mostrava-se harmônica com o por ele previsto.

O tempo foi passando e seu frisson por passos permaneceu. Entristecia-se ao ver sua mãe com passos cada vez mais robóticos. Queria poder ajudá-la. Mas como? Se ele mesmo tinha passos tímidos e sem vontade? Se ele não enfrentava os próprios problemas ou ainda olhares alheios?

Apesar de sua baixa autoestima, o garoto conseguiu encantar uma bela menina de tranças compridas e olhos vivos. Tinha treze anos quando cedeu aos encantos desta garota de  passos largos, destemidos e ousados.

A partir daí o garoto vivenciou anos dourados. A vida que era sombria e fria ganhava mais cores e clichês diversos. Continuava o mesmo: tímido, pouco confiante, mas agora amava e apoiava-se em alguém forte. Ela era como uma muleta para ele, na qual ele se prendia e sem a qual não sabia viver.

O relacionamento durou exatos nove anos. Findou-se em razão do intercâmbio de quatro anos desta para a Austrália. Ele, apesar de imensamente desolado nos primeiros meses de término, entendeu que aquela pessoa que lhe foi tão querida havia compartilhado momentos incríveis ao seu lado com o propósito de encorajá-lo a alçar vôos cada vez mais ousados. Suas passadas indicavam isto desde o início.

Desde o fatídico acontecimento a reflexão tomou conta de seu ser: Será que os passos permaneceriam os mesmos a todo tempo da vida? Será que eles, assim como seus donos não são capazes de mudar ou adquirir novos comportamentos, às vezes até contraditórios aos anteriores? Todas estas perguntas rodeavam-no a todo o tempo. Empiricamente constatou que são poucas aquelas pessoas realmente dispostas a mudar.

Isto visto que a mudança é sempre algo incômodo. Muitas variáveis podem estar em jogo. Muitos preferem não se arriscar e permanecem numa zona de conforto constante, mesmo que não seja aquela sua real vontade, mas por ser a via mais simples e menos traumática.

Lembrou-se de sua mãe. É óbvio que ela não gostaria de permanecer naquela condição. Mas para onde iria? Seria confortável para ela recomeçar? A incerteza e a tensão do novo podem se materializar em uma inércia pacífica e prolongada.

Ele mesmo pensava em mudar. De passos, de país, de vida. Apesar da convivência da garota ter-lhe feito uma pessoa melhor, suas convicções permaneciam as mesmas, seus passos arrastados e sem entusiasmo e as ideias de mudar eram-lhe apenas latentes e não saiam do plano aristotélico das ideias. 

Certo dia, numa noite de sábado, o garoto demorou a dormir. Teve sonhos pouco compreensíveis e os passos ressoavam em sua cabeça como sinos. Ao levantar percebeu que seu pé direito encontrava-se um pouco mais inclinado para fora. Suas passadas tímidas e arrastadas agora eram mais largas e ousadas. Andava como uma criança que acabara de descobrir a função dos pés.

Tropeçou por vezes até se firmar. As pessoas começaram a cumprimentá-lo com um sorriso no rosto. Sua cabeça foi aos poucos deixando de fitar os pés e passou a acompanhar a linha do horizonte.

As cores que a presença de sua musa traziam retornaram com mais brilho e pompa. Preservara seu hábito de analisar os passos até o fim de seus dias, mas agora olhava também as pessoas em seus olhos e exalava autoconfiança.

Por vezes teve medo de retroceder, de acordar frágil e desconfiado. Não! Seus passos só ganharam mais destreza e vivacidade e a partir de certo tempo tornaram-se para ele muito naturais.

O garoto então, agora com seus vinte e três anos, decidiu largar o curso de Engenharia Civil que havia começado por influência e pressão do pai e decidiu fazer o que lhe aprazia: Fotografia e Comunicação Visual.

Apesar de feliz pela visível mudança do filho, sua mãe não mudava o andado. Vivia ocupada demais para conversas triviais e recusava cafunés. Ele resolveu dedicar-se ao árduo processo de modificar-lhe os passos e de quebra a maneira de enxergar a vida.

Comprou a ela roupas novas e a presenteou com um dia no SPA. Os compromissos inadiáveis, segundo ela, foram facilmente remarcados pelo filho.

Em determinado momento do dia ela conseguiu se olhar no espelho e perceber que ainda era bonita. Que sua pele, apesar de não ser um pêssego, estava bem rígida. Orgulhou-se das suas linhas de expressão e pensou em quantas histórias cada uma delas não guardava.

Saiu de lá leve. Seus passos mais tranquilos. Ganhou elogios obscenos ao passar em frente a uma construção e riu prolongadamente como há muito tempo não fazia. Ao chegar em casa abraçou o filho e sem dizer uma palavra ambos se entenderam e choraram copiosamente. Aquele tinha sido o primeiro e mais importante passo de uma mudança iminente e certa.

O garoto - agora homem - formou-se com honras na faculdade e, contratado por uma multinacional, hoje viaja o mundo fotografando minúcias e detalhes. Casou-se com uma mulher distinta de passos firmes e convictos e exatamente hoje ensina sua primeira filha a andar.



domingo, 3 de novembro de 2013

Umalamar

Você pede o meu perdão
Mas eu não tenho o que perdoar
Eu não sabia que você
Gostava de se enganar
E me enganando fez saber
Como era inútil meu querer

Tanto fiz pra convencer
Que o meu amor
Seria a solução
De todos seus imbróglios e aflições
Uma alma só e dois corações

Mudei meu andado
E o meu jeito de pensar
Comprei aquele velho dicionário popular
Falei bonito e certo
Pra poder te impressionar
Mas pra quê? Mas pra quê?

Eu que cheguei há pouca hora
Não tenho por que me demorar
Afinal sua vida tá bacana
E quem sou eu pra bagunçar