sábado, 22 de dezembro de 2012

Retrovisor


                  Uma noite, ao voltar do trabalho, numa rua específica localizada na cidade de Goiânia, Brígida viu pelo retrovisor um casal. O menino deveria ter seus vinte e poucos anos assim como a menina. Não soube precisar com a devida certeza se havia alguém no banco de trás. A feição do jovem era sempre de alegria e satisfação por estar na companhia da amada. Pareceu a seu ver, ser uma pessoa altiva e brincalhona, que se ria nas dificuldades e delas, parecia ainda levar a vida de uma maneira amena e sem se afligir por pouca coisa.


O jovem entregava à menina no banco de carona um buquê, que poderia ainda ser um ovo de páscoa (a visão de um retrovisor embaçado é quando não ruim, péssima). Já a menina, apresentava o cenho franzido como se tudo pudesse ser motivo para discussão. Infelizmente o áudio desse curto vídeo não lhe foi permitido. Tinha que aprender a utilizar-se dos outros sentidos e expressões envolvidas na cena.

Tentou pegar alguma palavra por meio de leitura labial, mas quando parecia estar começando a esboçar um progresso, o sinal logo abria e todo o seu trabalho se perdia em marchas. Então, para completar essa parte teve ela que abrir as portas da imaginação e supor os possíveis diálogos: talvez tivesse ele se atrasado mais uma vez, ou ainda conversado de maneira diferente com aquela novata intercambista, teria a obrigado a passar um fim de semana na fazenda dos seus pais...

Ela poderia despender horas, dias naquele processo de adivinhação, mas resolveu conter-se e observar o porvir. Percebeu, porém, que por trás daquela seriedade e frieza, um sorriso se mostrava às vezes inevitável. Talvez fosse esse sorriso o elemento-chave para a manutenção dessa união. O caminho percorrido por ambos permaneceu o mesmo por um bom tempo e enquanto isso Brígida criava desfechos mil, mas em algum instante aquele casal seguiu o seu rumo e ela voltou a se ocupar apenas do trânsito.

Ela dirigia sozinha. Andava com os vidros trancados. Cuidava apenas da sua vida e do seu papagaio. Nunca em sua vasta carreira automobilística ela teria ousado olhar além do retrovisor e enxergar o que talvez não devesse ser visto. Aquele era um dia diferente. A vidinha bitolada e repetitiva da moça ganhara um tempero a mais. Os pensamentos que antes se resumiam ao que se ter para o jantar começavam a ficar mais complexos.

Esse flash que pode ter durado menos de cinco minutos fez com que ela quebrasse uma barreira anteriormente intransponível e começasse novamente a pensar nos rumos de sua própria vida. Como é que havia chegado àquele ponto. Ela que sempre foi uma garota comunicativa e solidária estava agora sozinha e cabisbaixa. O namorado queria algo mais sério e ela não. Ele então não mais a incomodou. Ela então se aventurou na experiência de morar sozinha, já que seus pais ansiavam por mais liberdade. Enfiou a cara nos estudos e passou em um bom concurso, porém estava longe de sentir-se realizada.

Trocou de carro esse ano: design arrojado, vidros auto-limpantes, um retrovisor maior. Guardava metade do que ganhava, mas não possuía nenhum propósito. Guardava-o talvez para uma futura emergência. E o grande sonho de conhecer o mundo esvaiu-se em algum momento da monotonia rotineira.

 Preparou-se para dormir, mas não conseguia. Pensava no casal observado no percurso de volta ao lar. Lembrou-se de Willian e das poesias matinais deixadas embaixo da vasilha de cereais. Lembrou-se daquela jovem cujo sorriso informava ao mundo que o porvir nunca a assustaria, que suas limitações inexistiam.

Tudo isso eram lembranças. Willian já havia se casado e postou hoje a foto de seu terceiro filho. Ela, apesar de ter trinta anos, aparentava o dobro. Não se exercitava há décadas e as dores apareciam cada vez mais agudas. Maquiagem era um item empoeirado em seu armário, resquícios de um tempo remoto.

Pensou na menina, de expressão carrancuda e sombria. Qual seria o motivo para tamanha insatisfação? Ela ansiava por encontrá-la novamente e aconselhar-lhe a viver bem, a aproveitar o momento e a não postergar suas escolhas. Queria poupá-la de alguma forma, impedir que sofresse. Todavia, tirando a ínfima probabilidade da ocorrência de um segundo esbarrão, a menina em questão sentir-se-ia lesionada em sua intimidade e poderia quem sabe até chamar a polícia.

O fato foi que após essa simples constatação, aquela que havia ligado o automático e escolhido viver por simples osmose, despertou. Começou a correr pelo quarteirão de seu prédio todas as manhãs e sentiu-se bem mais disposta. As dores diminuíram na mesma proporção que os sorrisos em seu rosto aumentaram.

As amigas que há muito tempo não via foram agraciadas com ligações prazerosas e delongadas. Cortou o cabelo e escondeu os prematuros fios brancos. Instalou um som no carro e comprou aquele Box do Bon Jovi que tanto desejava.

Ligou para os seus pais e chorou ao perceber que antes não os ouvia, mas apenas respondia automaticamente e sem entusiasmo às suas queixas e novidades. Visitou-os e foi presenteada com um abraço que poderia ser comparado a um choque de um desfibrilador potente, pois a trouxe de volta à vida.

 Marcou uma viagem para o exterior, sem destino pré-estabelecido. Viajou com uma amiga de serviço e conheceu lugares inimagináveis. Foi galanteada por italianos e festejou com desconhecidos russos. Depois de dois meses voltou.

A latência que lhe era inerente desapareceu em um momento que também não se sabe precisar. Sentia-se mais segura e certa de que nada a abateria.

Certo dia, algum tempo após sua reviravolta vital, encontrou novamente o casal estopim de sua transformação. Olhou-os pelo retrovisor como se houvesse encontrado novamente um amigo de longa data e a surpresa daquela situação a deixou estática. Depois de um curto tempo (questão de milésimos de segundos) resolveu ela apenas observá-los novamente.

Estavam agora felizes e rindo. Cantando talvez uma música, pois se expressavam exageradamente. Aquilo a comovera significativamente. E, quando encontrou uma oportunidade de ultrapassá-los, gritou com toda a força de seus pulmões:

__ Obrigada!!

E seguiu seu caminho cantando Bon Jovi. 

O início



Sempre tive uma vontade abscôndita de escrever um livro, mas ficava procurando por uma inspiração ou ainda uma idéia genial. Agora me dou conta de que isso tudo não passava de um medo de fazer algo ruim. Esse medo ainda existe, mas resolvi encará-lo de frente e pelo menos tentar. O que pode de ruim acontecer se eu assim o fizer? Talvez eu possa perder um tempo precioso de minha pequena existência, tempo esse em que poderia estar fazendo algo mais útil, mas o que? Acredito que levamos da vida aquilo que realmente tem algum valor para nós mesmos, e felizmente esse valor é aferido por cada pessoa individualmente e independe da opinião de terceiros. Espero poder transmitir boas, divertidas ou ainda instrutivas mensagens pelas linhas que escrever, mas se isso não acontecer, pelo menos uma pessoa terá se sentido realizada por ter tentado.