Ele se mostrava introspectivo em sua
origem. Quando pequeno gostava de brincar sozinho. Inventava histórias com
diálogos complexos e interpretava todos os personagens. Na escola sempre foi o
menor da classe e talvez por isso não era capaz de olhar nos olhos de ninguém.
Foi desse modo que ele desenvolveu aguçadamente um sentido: a audição.
Ouvia os barulhos mais ínfimos como o
pousar de uma mosca na lâmpada fluorescente ou ainda o sussurrar de uma brisa
leve, mas o que mais o interessava eram os passos.
O garoto era capaz de identificar pessoas
conhecidas apenas pelos passos que davam. Passos cansados, arrastados, alegres,
firmes ou enérgicos forneciam boas pistas sobre a personalidade das pessoas,
pensava ele.
Começou estudando uma pessoa por vez. Tinha
por volta dos dez anos quando, com um caderno brochura, criou uma tabela
simples relacionando comportamento versus passos.
Sua primeira cobaia foi sua mãe. Ela era
uma mulher magra e bem agitada e suas passadas eram para ele inconfundíveis.
Indicavam a mulher ocupada e inquieta que era. Sempre trabalhando e procurando
sustentar a ele e aos seus três irmãos.
O pai os havia trocado por uma mulher bem
mais jovem e a maneira que sua mãe encontrou de esquecê-lo foi trabalhando
incessantemente. Os passos dela eram automáticos e até ritmados: três por
segundo. Eles também não cessavam por longos períodos. Novas varizes brotavam
diariamente devido a isto.
Após a mãe, ele analisou os irmãos e foi
estendendo a pesquisa às pessoas que compunham o seu circulo de
relacionamentos. Analisou tias a tios, primos próximos e distantes e as pessoas
de sua sala de aula. Apesar da distração de seu hobby seu desempenho escolar
não havia diminuído nem um pouco.
Registrou suas anotações e, ao final de um
ano de pesquisa incessante, conseguiu tirar algumas conclusões básicas.
Ele sabia que estas conclusões não eram
regras, mas apenas direcionamentos. Claro que algumas pessoas e alguns passos desviavam-se
dos padrões esperados ou ainda não condiziam com o comportamento de quem os
dava. Todavia, a grande maioria mostrava-se harmônica com o por ele previsto.
O tempo foi passando e seu frisson por
passos permaneceu. Entristecia-se ao ver sua mãe com passos cada vez mais
robóticos. Queria poder ajudá-la. Mas como? Se ele mesmo tinha passos tímidos e
sem vontade? Se ele não enfrentava os próprios problemas ou ainda olhares
alheios?
Apesar de sua baixa autoestima, o garoto
conseguiu encantar uma bela menina de tranças compridas e olhos vivos. Tinha
treze anos quando cedeu aos encantos desta garota de passos largos, destemidos
e ousados.
A partir daí o garoto vivenciou anos
dourados. A vida que era sombria e fria ganhava mais cores e clichês diversos. Continuava
o mesmo: tímido, pouco confiante, mas agora amava e apoiava-se em alguém forte.
Ela era como uma muleta para ele, na qual ele se prendia e sem a qual não sabia viver.
O relacionamento durou exatos nove anos.
Findou-se em razão do intercâmbio de quatro anos desta para a Austrália. Ele,
apesar de imensamente desolado nos primeiros meses de término, entendeu que
aquela pessoa que lhe foi tão querida havia compartilhado momentos incríveis ao
seu lado com o propósito de encorajá-lo a alçar vôos cada vez mais ousados. Suas
passadas indicavam isto desde o início.
Desde o fatídico acontecimento a reflexão
tomou conta de seu ser: Será que os passos permaneceriam os mesmos a todo tempo
da vida? Será que eles, assim como seus donos não são capazes de mudar ou adquirir
novos comportamentos, às vezes até contraditórios aos anteriores? Todas estas
perguntas rodeavam-no a todo o tempo. Empiricamente constatou que são poucas
aquelas pessoas realmente dispostas a mudar.
Isto visto que a mudança é sempre algo
incômodo. Muitas variáveis podem estar em jogo. Muitos preferem não se arriscar
e permanecem numa zona de conforto constante, mesmo que não seja aquela sua
real vontade, mas por ser a via mais simples e menos traumática.
Lembrou-se de sua mãe. É óbvio que ela não
gostaria de permanecer naquela condição. Mas para onde iria? Seria confortável para ela recomeçar? A incerteza e a tensão do novo podem se materializar em uma inércia pacífica e prolongada.
Ele mesmo pensava em mudar. De passos, de
país, de vida. Apesar da convivência da garota ter-lhe feito uma pessoa
melhor, suas convicções permaneciam as mesmas, seus passos arrastados e sem
entusiasmo e as ideias de mudar eram-lhe apenas latentes e não saiam do plano
aristotélico das ideias.
Certo dia, numa noite de sábado, o garoto
demorou a dormir. Teve sonhos pouco compreensíveis e os passos ressoavam em sua
cabeça como sinos. Ao levantar percebeu que seu pé direito encontrava-se um
pouco mais inclinado para fora. Suas passadas tímidas e arrastadas agora eram
mais largas e ousadas. Andava como uma criança que acabara de descobrir a
função dos pés.
Tropeçou por vezes até se firmar. As
pessoas começaram a cumprimentá-lo com um sorriso no rosto. Sua cabeça foi aos
poucos deixando de fitar os pés e passou a acompanhar a linha do horizonte.
As cores que a presença de sua musa traziam retornaram com mais brilho e pompa. Preservara seu hábito de analisar os passos
até o fim de seus dias, mas agora olhava também as pessoas em seus olhos e exalava
autoconfiança.
Por vezes teve medo de retroceder, de
acordar frágil e desconfiado. Não! Seus passos só ganharam mais destreza e
vivacidade e a partir de certo tempo tornaram-se para ele muito naturais.
O garoto então, agora com seus vinte e
três anos, decidiu largar o curso de Engenharia Civil que havia começado por
influência e pressão do pai e decidiu fazer o que lhe aprazia: Fotografia e
Comunicação Visual.
Apesar de feliz pela visível mudança do
filho, sua mãe não mudava o andado. Vivia ocupada demais para conversas triviais
e recusava cafunés. Ele resolveu dedicar-se ao árduo processo de modificar-lhe
os passos e de quebra a maneira de enxergar a vida.
Comprou a ela roupas novas e a presenteou
com um dia no SPA. Os compromissos inadiáveis, segundo ela, foram facilmente
remarcados pelo filho.
Em determinado momento do dia ela
conseguiu se olhar no espelho e perceber que ainda era bonita. Que sua pele,
apesar de não ser um pêssego, estava bem rígida. Orgulhou-se das suas linhas de
expressão e pensou em quantas histórias cada uma delas não guardava.
Saiu de lá leve. Seus passos mais
tranquilos. Ganhou elogios obscenos ao passar em frente a uma construção e riu
prolongadamente como há muito tempo não fazia. Ao chegar em casa abraçou o
filho e sem dizer uma palavra ambos se entenderam e choraram copiosamente. Aquele tinha sido o primeiro e mais importante passo de uma
mudança iminente e certa.
O garoto - agora homem - formou-se com
honras na faculdade e, contratado por uma multinacional, hoje viaja o mundo
fotografando minúcias e detalhes. Casou-se com uma mulher distinta de passos
firmes e convictos e exatamente hoje ensina sua primeira filha a andar.
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