terça-feira, 8 de abril de 2014

Pássaros

"Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!" 
(Mário Quintana)




Reflito e me digo que já te esqueci
Que o passado não está a me inquietar
Que aproveito o presente e anseio o porvir
E que já não me sinto como senti

                  Sem ti

segunda-feira, 24 de março de 2014

Retire aqui a sua senha

             Loira, de estatura baixa, velha e gorda. Foi essa a imagem que aquela senhora quis passar a todos que se encontravam no banco. Chegou, pegou a sua senha no atendimento simples. Recusava-se a viver a vida de modo preferencial.

            Por coincidência ou obra do destino – para quem acredita nessas coisas - sentei-me ao seu lado e por meio de um sorriso doce que sempre carrego em caso de emergências – e que os libero sem nem mesmo perceber- acredito que ganhei a afeição e confiança daquela senhora de semblante irrequieto. Todavia nenhum diálogo havia sido ainda travado.

            Inicialmente queria apenas que o tempo voasse e que as pessoas cujas senhas me eram anteriores houvessem todas desistido da espera medianamente longa e deixassem o caminho livre apenas para mim. Isso claramente não ocorreu. Então me restou apenas observar a minha volta.

            Uma criança agitada circulava as cadeiras nas quais encontrávamos sentadas e encarava a senhora ao meu lado com um olhar de cumplicidade e carinho. Ela, por sua vez, o ignorava friamente. Foi aí que resolvi intervir.


            Comecei com uma constatação genérica, típica conversa de elevador:

            - Que criança mais bonita, não? Agitada como só!

            Bastaram estas palavras para que o assunto fluísse. E o tempo lento passou ligeiro. Começou contando-me que ainda não tivera netos e que desejava tê-los. Sua filha casou-se logo após terminar a faculdade e lá se vão quatro anos da união e nada de procriar.

            Titubeia. Pensando bem, o casamento deve ser bem aproveitado pelo casal antes que cheguem os filhos. Ademais, sua filha, uma princesa de corpo escultural, não pode deixar que um filho deforme sua estrutura corporal geneticamente herdada (genes majoritariamente maternos).

            Além de tudo o marido da moça é bem pé no chão. Pé no chão até demais. Quer filhos quando mais velho for. Quer aproveitar a mocidade e desfrutar das pernas torneadas de sua mulher.

            Quanto ao filho, este mais velho que a menina, pareceu-me pela sua descrição um típico bon-vivant. Tem um emprego razoável que o permite curtir baladas e vive ainda assim na casa dos pais. Não atinou em casar-se e muito menos ter filhos.

            Voltou-se posteriormente a ela. Que havia sido uma jovem linda e ativa. Os traços e os olhos verdes não a deixam mentir. Casou-se e evitou a gravidez por dois anos. Tinha lá seus métodos. Aproveitou o casamento e logo após teve os filhos.

            Ela sempre trabalhara fora. Era comerciante por profissão. Ficou em casa apenas na época de cuidar de seus filhos, mas logo que estes se encontravam crescidos, tornava ela ao batente. Ademais, esculpia por lazer.

            Atualmente trabalhava em uma empresa de amigos. Este estabelecimento, que passava por reestruturação financeira, cortou gastos e há quatro dias ela havia sido demitida. E agora? O que iria ela fazer?

            - O comércio é para os jovens. Gente velha não se encaixa nessa lógica. São lentos e não atendem com a devida sagacidade.

            Ela sabia que seria difícil encontrar outro emprego em sua faixa etária. Logo ela, que a vida toda havia vivido na agitação das ruas. Vendendo roupas, sapatos, jóias importadas.

            Dizia-me que quando sozinha em casa batia-lhe uma tristeza profunda. Um vazio imenso. Queriam paralisar compulsoriamente uma mulher que sempre trabalhara e que se aprazia disso. Não nasceu ela para viver enfurnada em casa.

            Não tinha experiência em nenhuma outra área e para complicar um pouco mais a situação, deixou de contribuir à previdência nas ocasiões em que trabalhava como autônoma, o que a impediu de aposentar-se de imediato.

            O filho-rêmora, preocupado com a mãe e sem querer lhe prover netos, teve a inovadora ideia de comprar-lhe um cachorro. Daqueles que de tão feios são até bonitos.

            Mas ela não iria amansar sua ânsia por produzir e ser útil por uma criaturinha fofa daquela. Não. Além do mais, o marido não iria gostar nem um pouco desta novidade. Mas o cachorro era uma mistura de raças nobres e não poderia ser descartado assim de cara, na lata.

            Talvez ficasse por lá até que o filho arranjasse outro lugar para ele. Mas disso não passa. Até que uma coleira verde cairia bem com suas manchas. Mas depois disso ele deveria ir embora. Mostrou-me as fotos do bicho no celular.

            - A054.

            Foi finalmente atendida. Independente. Autônoma. Resolveu seus problemas assim como nos tempos de outrora.

            Mas, segundo a mesma, a velhice chega para todos. E chega ela com gosto de gás. Enquanto você menos esperar deparar-se-á com limitações que antes não existiam.



            A senhora, cuja idade havia retirado-lhe o ânimo e o brilho dos olhos, finalizou seu atendimento e dirigiu-se à porta giratória sem olhar para trás. Vi através dos vidros que atravessara a rua em direção a um Pet Shop na esquina.

quarta-feira, 19 de março de 2014

Mit Zucker mit Zuneigung

Não entendo o que me fala
Faço esforço, persisto, tento
Fico tonta e a onda quebra
Me deixando sem alento

Coro com suas risadas
E suas piadas indecorosas
Decoro todas suas frases feitas
E em coro entoamos canções melosas

Mas ao sair não se despede
E também não diz quando volta
Notícias? Nem mesmo à mãe
Diz que é livre. Que nada o impede

E eu espero que ele volte
Não seria eu se não esperasse
E trago comigo o meu perfume 
Em um frasco de pouco volume 
E sem maquiagem na face

E quando ele volta é uma alegria
Deixo as perguntas para outra ocasião
E eu me agarro na incerteza feliz
Do talvez, do sim ou do não

 





domingo, 2 de março de 2014

Lavoisier aplicado à cultura


Há algum tempo venho percebendo que sutilmente incorporo detalhes de filmes e livros que leio à minha personalidade e meus gostos e os modifico de acordo com os meus interesses ou vontades. E com o passar dos tempos e das preocupações diárias não me lembro bem de onde tirei esta ou aquela mania.

Falo primeiramente do filme (metalinguístico) que me fez começar a raciocinar sobre o referido assunto: o Fabuloso Destino de Amelie Poulain. Já o assisti algumas vezes e todas as vezes que o faço, me vem à memória as coisas simples que faço, gosto (ou não) e que, por isso, me caracterizam.

Tentarei enumerá-las de maneira exemplificativa:

1- Gosto de bolo de trigo com mortadela e adoro bolos de aniversário com muito recheio;
2- Me incomoda quando o vapor da pamonha quente me embaça os óculos;
3- Gosto de ouvir histórias e não me importo se as mesmas já foram contadas;
4- Gosto de amassar massas;
5- Prefiro comer o recheio da bolacha primeiro;
6- Assisto a documentários de pessoas que não são muito exaltadas pelos meios de comunicação e procuro entender qual foi a contribuição dela para a sociedade (ou apenas para sua própria vida);
7- Gosto de roupas e calçados que não me apertem ou incomodem;
8- Não gosto de suco de caju, vitamina e misto quente.

Estas são algumas de minhas características que me fazem a pessoa que sou. E perceber isto é uma maneira de se conhecer e modificar aquilo que você gostaria que fosse modificado. 

Muitas vezes com as preocupações eleitas mais urgentes, deixamos de nos deliciar da nossa simplicidade assim como das pessoas que nos cercam. E, em minha singela opinião, a robotização que a vida nos impõe faz com que nos tornemos insensíveis aos detalhes. Porém estes, hora ou outra, merecem destaque. 

Já o filme de animação “Mary e Max” fez-me refletir sobre algo que eu já vinha colecionando: palavras preferidas. Seja pela sua sonoridade ou pelo seu significado, algumas palavras me chamam a atenção de maneira diferente das que uso em meu vocabulário diário.

Apesar de preferir estas palavras às demais, não as substituo em toda oportunidade que posso. Guardo-as comigo, como um tesouro, um achado. As ocasiões em que são expelidas devem ser especiais (e significativas).

São algumas delas: altaneira, cabrocha, malemolência, quiproquó, celeste, chorumela, lânguido, olvidar, cabreiro, matreiro, desarvorado, engambelar, soslaio.

Passando para os livros, foi somente quando reli a obra de Jostein Gaarder denominada O dia de Curinga que percebi de onde havia eu adquirido a mania de ler palavras ao contrário.

Minha alegria é maior quando alguma palavra, quando lida ao contrário, torna-se imbuída de algum significado. Por exemplo, descobri que ARGOS, a denominação de uma empresa ao contrário é SOGRA. E o sobrenome RAMOS ao contrário é SOMAR. 

É nestes momentos em que me sinto uma detetive investigativa que descobrirá a peça-chave para a resolução de determinado mistério apenas por inverter a ordem dessa ou daquela palavra.

Às vezes vou mais além: procuro anagramas.  Inverto a ordem das palavras, mexo na posição de algumas letras até descobrir alguma palavra com significação. Reinventando aquilo que adquiri com a leitura de uma obra da qual havia esquecido do enredo principal.

Mas é aí que vem a dúvida: Será que estes meus hábitos um tanto peculiares foram influenciados pelo que me cerca ou será que eles são anteriores e foram reforçados de alguma forma por estes? 

O tempo e a memória falha me impedem de responder a esta questão de modo seguro e certo. 

Mas isto não importa. A ordem dos fatores nesse caso não altera o resultado. O fato é que a leitura e as fontes midiáticas de alguma forma ajudam a incorporar aquilo que sou e que me torna uma pessoa única. Não especial, ao revés, nada especial, já que todos são diferentes e estão envoltos em suas significações próprias.

Rememorando o teorema do químico Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, mas tudo se transforma.

Assim, adequando o teorema e interpretando-o a meu favor, sinto-me constantemente agraciada pelas intervenções da arte em minhas modificações constantes, sejam elas pequenas, minuciosas ou expressivas.

Por fim, espero poder cada vez mais agregar ao meu eu detalhes ou hábitos que possam ajudar a me definir e a me encontrar. Que possam me tornar uma pessoa multifacetada e ávida à descoberta do novo. Sempre. 

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Rosa das brisas

Roubaram meu GPS
Perdi o rumo, o prumo
e minha localização no espaço

Senti-me frágil e insegura novamente

Temi arriscar-me em demasia
E não mais saber como voltar

Frequentava apenas os mesmos lugares

Aqueles denominados “favoritos”
E voltava, com medo, cedo

Perdi casamentos, batizados e chás de bebê

E os bolos de aniversário que tanto aprecio
Desculpei-me veemente, embora consciente
Da inconsistência de minha desculpa

Aceitavam-na incrédulos 

- “Talvez ela tivesse outro compromisso”
- “É impossível errar esse caminho”
Porém, eu não me esforçava em mudar

Olhava mapas, as estrelas e bússolas

Para mim não passavam de códigos 
Incompreensíveis e abstratos
Pois, bitolada que sou, pouco consigo enxergar o amplo

Espero que aquele que roubou meu GPS

O utilize com cautela e sabedoria
Que o aparelho o ajude a se localizar
Em todas as acepções da palavra

Pois mais que um eletrônico

Ele foi para mim um meio de lição
Árdua e paulatina de que a vida
E ela por si só, merece mais atenção

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mercado de Valores



Fábio e Joana se viam todos os dias úteis. Trabalhavam no mesmo local em mesas bem próximas. No início se cumprimentavam com um simples balançar de cabeça. Ele, mais antigo na empresa, fez questão de apresentar Joana a todos e fazer com que esta se sentisse confortável em seu ambiente de trabalho.

Passaram-se os meses e os cumprimentos foram ficando mais afetuosos. De manhã, no início do expediente, cumprimentavam-se com um aperto de mão prolongado e na despedida Fábio dava um leve e tenro toque no ombro de Joana.


Ele namorava com Dora havia sete anos e o relacionamento, embora tivesse caído na rotina, ainda era prazeroso para ambos. Joana não se relacionava com ninguém havia três anos, após o rompimento de seu noivado com Peter.


Fábio, sempre extrovertido, tirava sorrisos largos da boca de Joana sem fazer muito esforço. Qualquer dúvida ou caso inusitado lhe era imediatamente narrado e ambos deleitavam-se com a presença um do outro.


No último dia do primeiro ano do novo trabalho de Joana esta parecia não querer se despedir de Fábio. A simples presença dele sentado periodicamente ao seu lado a reconfortava imensamente. Ele também não pareceu tão animado a entrar de recesso como nos anos anteriores.


E neste dia despediram-se com um abraço curto e desengonçado. Joana inclinou o rosto para receber um beijo na face que não foi dado por vergonha ou falta de intimidade. Ambos se viraram e desejaram boas festividades um para o outro.


Retomadas as atividades da empresa, Joana chegara adiantada ao local de trabalho tamanha sua ansiedade em rever o colega. No momento em que chegou encontrou Fábio com seu semblante extasiado e com um sorriso tímido, daqueles em que apesar de não ser possível enxergar os dentes, continham mais alegria e expressividade que muitos risos largos.


Os dois conversaram sobre o que haviam feito no recesso e onde haviam comemorado o Ano Novo. Era visível a alegria do reencontro. Gargalharam por um momento e retomaram as atividades rotineiras da empresa.


Entre uma transação financeira e um empréstimo, Fábio procurava algum assunto para intervir e conversar com Joana. Esta ansiava por aquelas intervenções, que permitiam-na esquecer suas angústias e antigas frustrações.


O rompimento do relacionamento com Peter foi para ela bastante traumático. Eles haviam se conhecido em uma viagem desta à Holanda e desde lá começaram a se relacionar. Quando da volta desta, Peter resolveu acompanhá-la e mudou-se com ânimo definitivo ao Brasil. Moravam juntos desde então. 


Três anos se passaram até que Peter resolveu lhe pedir a mão em casamento. Joana não pôde conter a alegria que sentia no momento e aceitou sem titubear. 


Foram dois anos de noivado até que Peter, certo dia, virou-se para Joana e pediu a aliança de volta. Informou que não estava mais dando certo e não forneceu maiores explicações. Pegou suas malas e zarpou de volta à Holanda. E assim como começou, o relacionamento de ambos findou-se: randomicamente.


Desde tal incidente, Joana não conseguia mais se relacionar com pessoa alguma. Ela sempre se sentiu culpada pelo fiasco de seu noivado. Não se sentia a vontade com ninguém e a menina que antes era intuitiva e tranquila, passara agora a desconfiar sempre que uma pessoa buscava algum tipo de aproximação.


Esta desconfiança, por sua vez, não atingiu a Fábio. Este, ao contrário, fez com que aquela se sentisse acolhida e benquista. O labor, além de uma distração era para ela um prazer em razão de sua companhia.


Já Fábio namorava com Dora há sete anos e ainda não havia sentido a mínima vontade de casar. Ela, apesar de tranquila, ansiava pelo dia em que tal pedido chegasse. Conheceram-se em um festival de MPB, local em que além de olhares, trocaram telefones e alguns beijos.


A cumplicidade foi crescendo com o passar dos anos ao passo que o amor de Fábio por Dora foi estagnando e caindo na mesmice. Ele ansiava pelo novo. Pela aventura. Sentia falta de algo que não sabia o quê exatamente. 


Foi aí que apareceu Joana. Esta ressuscitou o viés acolhedor e protetor de Fábio. Ele buscava artifícios diversos para diverti-la. Ambos se compraziam da presença um do outro e se completavam em suas carências.


No ambiente de trabalho todos notavam a cumplicidade dos dois. Até clientes poderiam notar. Era visível. Todavia, os desejos de ambos eram reprimidos em nome da decência. E eles conviviam bem daquela maneira. Riam-se, entretinham-se e só.


A confiança passada por Fábio permitiu com que Joana voltasse a acreditar no amor dos homens. E foi através dele que conheceu Paulo e engatou com ele um relacionamento manso, pacífico e doce. 


E assim permanece o ambiente de trabalho para Joana e Fábio: leve, delicioso e encantador. É fato que um não será inteiramente feliz sem a presença do outro, mas contidos os impulsos iniciais, em verdade vos digo que esta amizade e companheirismo ultrapassarão os limites da aposentadoria compulsória. 

sábado, 18 de janeiro de 2014

BOHRing

Traga aquilo o que importa
Jogue o resto na lixeira
Passe a régua, feche a conta
Pois "em redor do buraco
Tudo é beira"

E com essa química saudável
Que me capacita a enxergar
Ouço o canto de Ariano
Que não é pernambucano
Mas bem que poderia ser

A lógica das coisas simples
Se esconde na obviedade
Que de automática e fluida
É errônea com o tempo
E mal entendida com o passar da idade

sábado, 4 de janeiro de 2014

Soneto da desconstrução

Sempre preferi pela livre métrica
Pela expressão fluida das ideias
Nunca havia me atido à forma
O faço para ganhar novas plateias

Mas meu real objetivo é outro:
Pretendo atestar minha intuição
Será que a atenção à estrutura
Desconfigura do pensar a fruição?

Tantas foram as declarações de amor
Escritas sobre esta velha roupagem
E transmitiam ao leitor certo rubor
Tipicamente próprio do personagem

Hoje vejo o soneto qual a vida
Significativa, embora tolhida