Guilbert.
Esse era um nome que todos na pacata cidade de Bacabal conheciam bem. Não havia
viválma na cidade que não enchesse os olhos de lágrimas quando o nome do garoto
era pronunciado. Lágrimas orgulhosas, de afeto e admiração.
Também
pudera, numa cidade em que mais de setenta por cento da população não sabia
assinar o próprio nome, o menino Guilbert, persistente que era, conseguiu
passar em um vestibular concorrido para Medicina.
Todos
na cidade colaboravam para a formação do menino prodígio. Seu Manoel tirava do
pão de todo dia para poder contribuir. Dona Josefa dobrava o turno na venda de
tapioca para inteirar o auxílio do mês. A cidade inteira se mobilizava nesta
causa tão sublime.
Isto
porque o menino vivia com sua avó materna, uma senhorinha de oitenta e poucos
anos que tirava seu sustento da aposentadoria do marido, que em seus tempos
áureos havia sido militar. Deste modo, dona Deolina, apesar de ansiar pelo
sucesso do neto, não poderia ajudá-lo a realizar seu grande sonho.
Tudo
começou quando Guilbert, por um acaso, passou em frente à enfermaria/hospital
da cidade. O menino, à época com quatorze anos de idade, fixou o olhar em uma
criança abatida, de idade próxima à dele que lhe implorou por socorro.
Socorro?
Mas como aquele menino poderia ajudar? Ele não possuía conhecimentos médicos.
Ele era só uma criança.
O
menino permaneceu inerte por alguns minutos. Parecia tentar processar a
informação e procurar uma resposta plausível para o apelo que o havia sido
feito. Nada vinha à sua mente.
Esgotada
a sua energia mental, o menino correu daquele local o mais rápido que pôde e
prometeu a si mesmo que só voltaria ali quando realmente pudesse ser útil e
ajudar. Quando tivesse na ponta da língua uma resposta para as aflições físicas
dos seus iguais.
Foi
então que toda essa idéia de estudar medicina apareceu no consciente de
Guilbert.
Naquele
tempo, o menino estudava na Escola Municipal Ferreira Goulart. O traslado de
casa à escola demorava cerca de duas horas à pé. Na volta ele conseguia carona
com um carroceiro vizinho e isto o economizava uma hora.
A
escola, apesar de não possuir uma boa estrutura física, contava com uma
biblioteca razoável e professores que, apesar das diversidades e da baixa
remuneração, faziam de tudo para auxiliar àqueles cujo destino poderia ser
revertido graças à educação.
Antes
deste insight, Guilbert era conhecido na escola como o devorador de livros. Ele
não se sobressaía nos esportes e nunca foi muito sociável (possuía alguns
poucos e fiéis amigos). Desta forma, encontrou na leitura uma forma de
distração instrutiva.
O
menino lia tudo. Não descartava um livro por tratar-se de assunto que não
possuía conhecimento. Eram estes os livros que mais o deixavam instigado. Leu
sobre a História Grega antiga, sobre a evolução da eletrônica, entre outros
temas avulsos.
Guilbert
então, dotado de sua ânsia em tornar-se médico, pediu auxílio à sua professora
de Ciências Humanas. Pediu a esta uma estratégia de estudo, um direcionamento e
uma sugestão de matérias a serem estudadas a fundo.
A
professora, em um primeiro momento pensou que o pedido do garoto não passava de
um impulso passageiro e repentino. Todavia, tendo em vista a insistência dele
naquele tema, fez questão de disponibilizar algum tempo de sua ocupada agenda
para montar um plano de estudos para o garoto.
Este,
disciplinado como era, cumpriu a risca o determinado pela professora. A partir
de então foi aumentando por conta própria a carga horária destinada aos estudos
e após três anos de determinação e superação diárias, o menino finalmente teve
a chance de prestar vestibular.
Infelizmente
não passou na primeira tentativa, visto que a concorrência para o curso
desejado era monstruosa. Todavia, isto não o abateu hipótese alguma. Algo o
dizia para continuar tentando e não desistir.
Foi
então que na terceira tentativa Guilbert realizou seu grande sonho.
No
dia em que a souberam da aprovação do menino, a cidade inteira entrou em festa.
Seu Joaquim fechou a barbearia antes de acabar o expediente para oferecer um
arroz de cuxá ao vitorioso.
O prefeito da cidade, que tinha como foco a
reeleição, estendeu faixas de congratulação pela cidade em homenagem ao mais
novo universitário da região.
A
vó Deolina despedia-se de neto com o coraçãozinho apertado. Ele era sua única
companhia, descontando a de seus animais de estimação. As lágrimas rolavam em
seu rosto em uma profusão de sentimentos, dentre eles: orgulho, emoção e
saudade.
A
escola municipal se mobilizou e, antenados nas leis de incentivo à educação, os
professores conseguiram inscrever Guilbert em programas governamentais. Este
não deveria preocupar-se com despesas no que concerne à moradia e livros.
Quanto
à alimentação, lhe seria entregue um cartão com reposição mensal de fundos a
fito de que este pudesse desfrutar do almoço saudável e balanceado servido no
Restaurante Universitário.
Restava
ao jovem arcar com gastos de transporte, vestimenta e alguns outros. Foi então
que a cidade em peso, em reunião no coreto, decidiu contribuir com R$ 500,00
(quinhentos reais) mensais para o aprendizado de Guilbert.
O
menino homem não sabia como retribuir tamanha gentileza e apreço por sua pessoa.
Pensou bastante sobre ter de deixar a avó sozinha e decidiu que era necessário.
Zarpou
então rumo a terra desconhecida. A cidade era grande e movimentada de
automóveis e pessoas atordoadas. Ficou ligeiramente zonzo nos primeiros dias,
porém em pouco tempo adaptou-se à mudança de ares e rotina.
Seu
curso, com duração de seis anos, era integral. Quando não tinha aulas, podia
ser facilmente encontrado na biblioteca.
Fez
amigos na classe e nunca se esqueceu de continuar correspondendo-se com aqueles
que em Bacabal deixou. Na verdade era agraciado com inúmeras cartas saudosas
que sempre foram devidamente respondidas.
Passaram-se
os seis anos de curso e nosso garoto formou-se com honras. Foi o orador da
turma e agradeceu imensamente a todos que possibilitaram com que ele ali
estivesse. Bacabal em peso compareceu na formatura do Dr. Guilbert.
A
festa que começou em Imperatriz terminou em Bacabal em grande estilo: três dias
da mais pura alegria maranhense.
Passada
a euforia e após demonstrar todo o seu carinho na forma de abraços distribuídos
a granel, o menino lembrou-se do impulso que o fez escolher aquela linda
profissão e, de imediato, foi admitido como cirurgião-chefe da equipe
hospitalar da enfermaria/hospital.
A
região festejou imensamente, visto que nunca, na história da cidade, um médico
daquela especialidade havia tomado posse. Quando a coisa ficava séria, os
doentes deveriam ser imediatamente transferidos para a capital que ficava há
pelo menos umas cinco horas - de carro - dali.
Guilbert
então, procurando informações sobre a criança que o havia requisitado ajuda da
última vez que por ali passara, descobriu, depois de checadas algumas guias de
internação, que esta havia se mudado com a família para Bom Lugar, a poucos
quilômetros de Bacabal e que hoje possuía vinte anos.
Como
uma forma de imprimir significado a toda sua vasta e compensatória jornada
acreditou ser a visita àquela criança imprescindível.
De
posse do endereço, deslocou-se à cidade e tocou a campainha de uma casa
bastante humilde. Atendeu a própria criança, agora uma mulher, com uma
vivacidade impressionante no olhar.
Antes
que o doutor pudesse pronunciar uma palavra, a garota informou que havia
lembrado das feições de Guilbert e da situação em que haviam se deparado.
Após
aquele haver lhe contado resumidamente seus honrosos feitos esta reconheceu-os
e expressou-se numa frase que ficaria para sempre marcada na lembrança daquele
médico:
---
Muito bom. Reconheço seu esforço e determinação e admiro-lhe profundamente.
Todavia, lembro que o que mais precisava naquele exato momento era de um abraço
e palavras reconfortantes. De coisas que não precisavam ser prescritas em uma
receita.
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