sábado, 31 de agosto de 2013

A ajuda


Guilbert. Esse era um nome que todos na pacata cidade de Bacabal conheciam bem. Não havia viválma na cidade que não enchesse os olhos de lágrimas quando o nome do garoto era pronunciado. Lágrimas orgulhosas, de afeto e admiração.

Também pudera, numa cidade em que mais de setenta por cento da população não sabia assinar o próprio nome, o menino Guilbert, persistente que era, conseguiu passar em um vestibular concorrido para Medicina.

Todos na cidade colaboravam para a formação do menino prodígio. Seu Manoel tirava do pão de todo dia para poder contribuir. Dona Josefa dobrava o turno na venda de tapioca para inteirar o auxílio do mês. A cidade inteira se mobilizava nesta causa tão sublime.

Isto porque o menino vivia com sua avó materna, uma senhorinha de oitenta e poucos anos que tirava seu sustento da aposentadoria do marido, que em seus tempos áureos havia sido militar. Deste modo, dona Deolina, apesar de ansiar pelo sucesso do neto, não poderia ajudá-lo a realizar seu grande sonho.

Tudo começou quando Guilbert, por um acaso, passou em frente à enfermaria/hospital da cidade. O menino, à época com quatorze anos de idade, fixou o olhar em uma criança abatida, de idade próxima à dele que lhe implorou por socorro.

Socorro? Mas como aquele menino poderia ajudar? Ele não possuía conhecimentos médicos. Ele era só uma criança.

O menino permaneceu inerte por alguns minutos. Parecia tentar processar a informação e procurar uma resposta plausível para o apelo que o havia sido feito. Nada vinha à sua mente.
Esgotada a sua energia mental, o menino correu daquele local o mais rápido que pôde e prometeu a si mesmo que só voltaria ali quando realmente pudesse ser útil e ajudar. Quando tivesse na ponta da língua uma resposta para as aflições físicas dos seus iguais.

Foi então que toda essa idéia de estudar medicina apareceu no consciente de Guilbert.

Naquele tempo, o menino estudava na Escola Municipal Ferreira Goulart. O traslado de casa à escola demorava cerca de duas horas à pé. Na volta ele conseguia carona com um carroceiro vizinho e isto o economizava uma hora.

A escola, apesar de não possuir uma boa estrutura física, contava com uma biblioteca razoável e professores que, apesar das diversidades e da baixa remuneração, faziam de tudo para auxiliar àqueles cujo destino poderia ser revertido graças à educação.

Antes deste insight, Guilbert era conhecido na escola como o devorador de livros. Ele não se sobressaía nos esportes e nunca foi muito sociável (possuía alguns poucos e fiéis amigos). Desta forma, encontrou na leitura uma forma de distração instrutiva.

O menino lia tudo. Não descartava um livro por tratar-se de assunto que não possuía conhecimento. Eram estes os livros que mais o deixavam instigado. Leu sobre a História Grega antiga, sobre a evolução da eletrônica, entre outros temas avulsos.

Guilbert então, dotado de sua ânsia em tornar-se médico, pediu auxílio à sua professora de Ciências Humanas. Pediu a esta uma estratégia de estudo, um direcionamento e uma sugestão de matérias a serem estudadas a fundo.

A professora, em um primeiro momento pensou que o pedido do garoto não passava de um impulso passageiro e repentino. Todavia, tendo em vista a insistência dele naquele tema, fez questão de disponibilizar algum tempo de sua ocupada agenda para montar um plano de estudos para o garoto.

Este, disciplinado como era, cumpriu a risca o determinado pela professora. A partir de então foi aumentando por conta própria a carga horária destinada aos estudos e após três anos de determinação e superação diárias, o menino finalmente teve a chance de prestar vestibular.

Infelizmente não passou na primeira tentativa, visto que a concorrência para o curso desejado era monstruosa. Todavia, isto não o abateu hipótese alguma. Algo o dizia para continuar tentando e não desistir.

Foi então que na terceira tentativa Guilbert realizou seu grande sonho.

No dia em que a souberam da aprovação do menino, a cidade inteira entrou em festa. Seu Joaquim fechou a barbearia antes de acabar o expediente para oferecer um arroz de cuxá ao vitorioso.

 O prefeito da cidade, que tinha como foco a reeleição, estendeu faixas de congratulação pela cidade em homenagem ao mais novo universitário da região.

A vó Deolina despedia-se de neto com o coraçãozinho apertado. Ele era sua única companhia, descontando a de seus animais de estimação. As lágrimas rolavam em seu rosto em uma profusão de sentimentos, dentre eles: orgulho, emoção e saudade.

A escola municipal se mobilizou e, antenados nas leis de incentivo à educação, os professores conseguiram inscrever Guilbert em programas governamentais. Este não deveria preocupar-se com despesas no que concerne à moradia e livros.

Quanto à alimentação, lhe seria entregue um cartão com reposição mensal de fundos a fito de que este pudesse desfrutar do almoço saudável e balanceado servido no Restaurante Universitário.

Restava ao jovem arcar com gastos de transporte, vestimenta e alguns outros. Foi então que a cidade em peso, em reunião no coreto, decidiu contribuir com R$ 500,00 (quinhentos reais) mensais para o aprendizado de Guilbert.

O menino homem não sabia como retribuir tamanha gentileza e apreço por sua pessoa. Pensou bastante sobre ter de deixar a avó sozinha e decidiu que era necessário.

Zarpou então rumo a terra desconhecida. A cidade era grande e movimentada de automóveis e pessoas atordoadas. Ficou ligeiramente zonzo nos primeiros dias, porém em pouco tempo adaptou-se à mudança de ares e rotina.

Seu curso, com duração de seis anos, era integral. Quando não tinha aulas, podia ser facilmente encontrado na biblioteca.

Fez amigos na classe e nunca se esqueceu de continuar correspondendo-se com aqueles que em Bacabal deixou. Na verdade era agraciado com inúmeras cartas saudosas que sempre foram devidamente respondidas.

Passaram-se os seis anos de curso e nosso garoto formou-se com honras. Foi o orador da turma e agradeceu imensamente a todos que possibilitaram com que ele ali estivesse. Bacabal em peso compareceu na formatura do Dr. Guilbert.

A festa que começou em Imperatriz terminou em Bacabal em grande estilo: três dias da mais pura alegria maranhense.

Passada a euforia e após demonstrar todo o seu carinho na forma de abraços distribuídos a granel, o menino lembrou-se do impulso que o fez escolher aquela linda profissão e, de imediato, foi admitido como cirurgião-chefe da equipe hospitalar da enfermaria/hospital.

A região festejou imensamente, visto que nunca, na história da cidade, um médico daquela especialidade havia tomado posse. Quando a coisa ficava séria, os doentes deveriam ser imediatamente transferidos para a capital que ficava há pelo menos umas cinco horas - de carro - dali.

Guilbert então, procurando informações sobre a criança que o havia requisitado ajuda da última vez que por ali passara, descobriu, depois de checadas algumas guias de internação, que esta havia se mudado com a família para Bom Lugar, a poucos quilômetros de Bacabal e que hoje possuía vinte anos.

Como uma forma de imprimir significado a toda sua vasta e compensatória jornada acreditou ser a visita àquela criança imprescindível.

De posse do endereço, deslocou-se à cidade e tocou a campainha de uma casa bastante humilde. Atendeu a própria criança, agora uma mulher, com uma vivacidade impressionante no olhar.

Antes que o doutor pudesse pronunciar uma palavra, a garota informou que havia lembrado das feições de Guilbert e da situação em que haviam se deparado.

Após aquele haver lhe contado resumidamente seus honrosos feitos esta reconheceu-os e expressou-se numa frase que ficaria para sempre marcada na lembrança daquele médico:


--- Muito bom. Reconheço seu esforço e determinação e admiro-lhe profundamente. Todavia, lembro que o que mais precisava naquele exato momento era de um abraço e palavras reconfortantes. De coisas que não precisavam ser prescritas em uma receita.

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