Aurora andava sempre angustiada.
Sentia-se incompleta. Algo faltava em sua vida. Mas o que?
Pensou por várias vezes que a
razão desse vazio fosse a ausência de um companheiro, de uma pessoa com quem
pudesse contar. Teve lá alguns casos efêmeros e esparsos com rapazes com quem
não conseguiu se abrir. Sempre se lembrava daqueles versos de uma música do
Vinícius: “quem de dentro de si não sai/ vai morrer sem amar ninguém” e se
questionava: teria ela em algum momento de sua vida se aberto com alguém?
Muito tímida e temendo opiniões
externas e rejeições, ela seguiu por muito tempo a filosofia zecapagodiana de
deixar a vida a levar. As coisas passavam e ela se mantinha inerte. Às vezes
fazia-se de indiferente, mas no fundo morria um pouco por dentro em
determinadas situações, por não saber como lidar.
Observava à distância a vida dos
outros e se impressionava com a rapidez que determinadas pessoas se desfaziam
de outras, com as mudanças constantes na rotina de alguns. E a vida dela
permanecia imóvel. Dava voltas, ensaiava mudar, mas retornava à estaca zero.
Gostar. Aurora queria perseguir
aquele verbo. Queria entende-lo a fundo. Amar então... nem se fale. Não se
conseguia imaginar escrevendo declarações públicas de afeto com tanto
entusiasmo e com a energia autêntica dos casais apaixonados.
Para ela seria tudo um forçar de
barra sem tamanho. Mas não queria que fosse. Queria poder encontrar uma pessoa
que pudesse a fazer ser completamente honesta.
A menina de cabelos ruivos e
andar esguio não se questionava apenas no âmbito sentimental. Esse era, sem
dúvida, um tema recorrente que a perseguia, mas não o único. Questionava ainda
sua posição no mundo.
Sentia-se desimportante. Em
determinada ocasião, retomando à sua infância, seus pais a esqueceram no
colégio por duas horas além do previsto. Isso só reforçou, desde então, sua
dispensabilidade.
Um dos seus maiores medos era
parecer inconveniente, pedante. E às vezes pecava mais pela falta do que pelo
excesso. É uma amiga distante. Conversa, procura manter as amizades, mas não é
assídua nesse sentido.
Tem poucos amigos, mas pode
contar com eles para o que precisar.
- Mc chicken? (com um som bem
nasalado). Pra comer aqui ou pra viagem?
Ela não sabia responder àquela
pergunta. Ficou atônita por um tempo, enrolando a enorme fila da lanchonete e
raciocinando sobre a vida sem parecer chegar à conclusão alguma. Por fim, saiu
e, como se ainda estivesse em outra dimensão, engoliu o sanduíche sem perceber
o que fazia.
E assim se passaram alguns dias,
meses, anos, nessa reflexão infinita. Sua angústia preocupava aqueles que
estavam à sua volta. Ela que já era introspectiva, foi ficando cada vez mais
fechada, se sentindo mal consigo mesma, feia, incompetente, desprovida de
inteligência e de quaisquer outras qualidades. Além de tudo se sentia um peso
por depender de seus pais.
Já não estava tão jovem e os
planos de constituir família e ter filhos ia se esvaindo. Com tantas opções
mais interessantes que ela, qual seria o seu diferencial? Seu mundo que já não
era lá tão colorido foi ficando cada vez mais cinza, esbranquiçado, disforme.
Foi nesse momento que a indicaram
a análise, a meditação e a prática contínua do autoconhecimento. Aurora foi
racionalizando medos antigos, percebendo os desvios que a haviam trazido até
aquele momento e encarando de frente seus problemas. Responsabilizou-se a
partir daquele momento por sua vida.
Gostaria de iniciar esse novo
parágrafo dizendo que tudo se transformou e que ,em um passe de mágica, Aurora se
tornou mais confiante, que descobriu o caminho a seguir, sua beleza interior e
tudo o mais que procurava. Não foi bem assim... Crises houveram, momentos de
fraqueza, de dúvidas e não consigo precisar se esses ainda não se repetirão. O
processo é lento e gradual, mas Aurora continua firme no propósito de se
melhorar a cada dia.
- Miguel, vamos ao divã?
Ao sair da sessão, seus olhares
se cruzaram. Um sorriso discreto veio junto. Quem sabe?