sexta-feira, 24 de junho de 2022

Combustão

 De peito aberto

Aqui vos falo

Desse enorme turbilhão 

De ideias, desejos, medos

Cuca entrando em combustão


Reage! Bota um cropped

Bota a cara no sol

Tira a bota do armário

Tira o presidente do plenário

Olha a festa no paiol


É mentira! Segue passeio

Respira

Suspira

Cê pira?


Vida que segue

Passeio dia pensando nisso

Tudo passa

Bora lá?

domingo, 9 de maio de 2021

Tente

 Tudo dá medo

O futuro

O agora

A doença

A incerteza


A finitude da vida

E as decisões que tomamos

A cada segundo


Que ele não nos dirija

Nos faça mais cautelosos

Mas não nos impeça de seguir

Encontrar nosso propósito

Nosso caminho 

E nossa evolução 


Nos tire da zona de conforto

E nos mostre que somos capazes 

De muito mais do que 

No melhor dos sonhos 

Imaginaríamos ser


Tente 

Se errar, tente novamente

se cansar, se sente

Mas tente 

terça-feira, 20 de abril de 2021

Quãoforto

 Tenho medo de sair

E ver o que sou 

Aqui por dentro


Quem de dentro de si 

Não sai

Fica dentro de si

Nã vai


E não vinga

Piruá sem rumo

Água de chuveiro

Que não

Pinga


Escorre a vida

Lágrimas marejam

O olhar distante

De quem não muda


Conforto que não aquece

E posterga a mudança

Dia após dia

Dia, após, adia


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

Yes, we can (?)

 Haja pensamentos

Aja

Turbilhão de ideias

Nada

Inação assistida 

Faça

Veneno de cobra

Naja


Step by step

Day by day

O passo que não dei

O dia que não passa

E quando tudo acaba

Sofro o que não viverei



quarta-feira, 6 de maio de 2020

Matéria vida

O que é a vida
senão um passar de dias
Até a morte
Evento futuro e certo

Certa estou
Que não sei nada
Qur assim como algumas estradas
Às vezes me vejo sem chão

Não!
Não sei o rumo que sigo
Quero sempre me melhorar
Quero muito? Quero um lar
Em que eu possa conviver
Vrdadeiramente comigo

Não é a minha intenção
Me importar com pequenezas
Quero o conforto do corpo e alma
E que minhas mais preciosas riquezas
sejam o olhar atento e a fruição
Com calma.


domingo, 19 de abril de 2020

Quarentena

Quarenta dias de saudade
Cinquenta de solidão
Em alguns deles ansiedade
Outros incerteza e constatação

De que a vida não espera
Só espera que você
Não se desespere

Além das dificuldades
A ela já inerentes
Podem surgir ainda
Outras modernas, supervenientes
Que te obrigam a parar

Então pare, leia um livro
Tome um fôlego
Restitua essa vontade
Os impostos, pra mais tarde
Tudo isso vai passar

Só não perca a esperança
Quem espera alcança
Algo nessa randômica dança
Valsa de criança
Nosso caminhar

sábado, 28 de março de 2020

O tempo de Aurora


 Aurora andava sempre angustiada. Sentia-se incompleta. Algo faltava em sua vida. Mas o que?

Pensou por várias vezes que a razão desse vazio fosse a ausência de um companheiro, de uma pessoa com quem pudesse contar. Teve lá alguns casos efêmeros e esparsos com rapazes com quem não conseguiu se abrir. Sempre se lembrava daqueles versos de uma música do Vinícius: “quem de dentro de si não sai/ vai morrer sem amar ninguém” e se questionava: teria ela em algum momento de sua vida se aberto com alguém?

Muito tímida e temendo opiniões externas e rejeições, ela seguiu por muito tempo a filosofia zecapagodiana de deixar a vida a levar. As coisas passavam e ela se mantinha inerte. Às vezes fazia-se de indiferente, mas no fundo morria um pouco por dentro em determinadas situações, por não saber como lidar.

Observava à distância a vida dos outros e se impressionava com a rapidez que determinadas pessoas se desfaziam de outras, com as mudanças constantes na rotina de alguns. E a vida dela permanecia imóvel. Dava voltas, ensaiava mudar, mas retornava à estaca zero.

Gostar. Aurora queria perseguir aquele verbo. Queria entende-lo a fundo. Amar então... nem se fale. Não se conseguia imaginar escrevendo declarações públicas de afeto com tanto entusiasmo e com a energia autêntica dos casais apaixonados.

Para ela seria tudo um forçar de barra sem tamanho. Mas não queria que fosse. Queria poder encontrar uma pessoa que pudesse a fazer ser completamente honesta.

A menina de cabelos ruivos e andar esguio não se questionava apenas no âmbito sentimental. Esse era, sem dúvida, um tema recorrente que a perseguia, mas não o único. Questionava ainda sua posição no mundo.

Sentia-se desimportante. Em determinada ocasião, retomando à sua infância, seus pais a esqueceram no colégio por duas horas além do previsto. Isso só reforçou, desde então, sua dispensabilidade.

Um dos seus maiores medos era parecer inconveniente, pedante. E às vezes pecava mais pela falta do que pelo excesso. É uma amiga distante. Conversa, procura manter as amizades, mas não é assídua nesse sentido.

Tem poucos amigos, mas pode contar com eles para o que precisar.

- Mc chicken? (com um som bem nasalado). Pra comer aqui ou pra viagem?

Ela não sabia responder àquela pergunta. Ficou atônita por um tempo, enrolando a enorme fila da lanchonete e raciocinando sobre a vida sem parecer chegar à conclusão alguma. Por fim, saiu e, como se ainda estivesse em outra dimensão, engoliu o sanduíche sem perceber o que fazia.

E assim se passaram alguns dias, meses, anos, nessa reflexão infinita. Sua angústia preocupava aqueles que estavam à sua volta. Ela que já era introspectiva, foi ficando cada vez mais fechada, se sentindo mal consigo mesma, feia, incompetente, desprovida de inteligência e de quaisquer outras qualidades. Além de tudo se sentia um peso por depender de seus pais.

Já não estava tão jovem e os planos de constituir família e ter filhos ia se esvaindo. Com tantas opções mais interessantes que ela, qual seria o seu diferencial? Seu mundo que já não era lá tão colorido foi ficando cada vez mais cinza, esbranquiçado, disforme.

Foi nesse momento que a indicaram a análise, a meditação e a prática contínua do autoconhecimento. Aurora foi racionalizando medos antigos, percebendo os desvios que a haviam trazido até aquele momento e encarando de frente seus problemas. Responsabilizou-se a partir daquele momento por sua vida.

Gostaria de iniciar esse novo parágrafo dizendo que tudo se transformou e que ,em um passe de mágica, Aurora se tornou mais confiante, que descobriu o caminho a seguir, sua beleza interior e tudo o mais que procurava. Não foi bem assim... Crises houveram, momentos de fraqueza, de dúvidas e não consigo precisar se esses ainda não se repetirão. O processo é lento e gradual, mas Aurora continua firme no propósito de se melhorar a cada dia.

- Miguel, vamos ao divã?

Ao sair da sessão, seus olhares se cruzaram. Um sorriso discreto veio junto. Quem sabe?