sábado, 28 de março de 2020

O tempo de Aurora


 Aurora andava sempre angustiada. Sentia-se incompleta. Algo faltava em sua vida. Mas o que?

Pensou por várias vezes que a razão desse vazio fosse a ausência de um companheiro, de uma pessoa com quem pudesse contar. Teve lá alguns casos efêmeros e esparsos com rapazes com quem não conseguiu se abrir. Sempre se lembrava daqueles versos de uma música do Vinícius: “quem de dentro de si não sai/ vai morrer sem amar ninguém” e se questionava: teria ela em algum momento de sua vida se aberto com alguém?

Muito tímida e temendo opiniões externas e rejeições, ela seguiu por muito tempo a filosofia zecapagodiana de deixar a vida a levar. As coisas passavam e ela se mantinha inerte. Às vezes fazia-se de indiferente, mas no fundo morria um pouco por dentro em determinadas situações, por não saber como lidar.

Observava à distância a vida dos outros e se impressionava com a rapidez que determinadas pessoas se desfaziam de outras, com as mudanças constantes na rotina de alguns. E a vida dela permanecia imóvel. Dava voltas, ensaiava mudar, mas retornava à estaca zero.

Gostar. Aurora queria perseguir aquele verbo. Queria entende-lo a fundo. Amar então... nem se fale. Não se conseguia imaginar escrevendo declarações públicas de afeto com tanto entusiasmo e com a energia autêntica dos casais apaixonados.

Para ela seria tudo um forçar de barra sem tamanho. Mas não queria que fosse. Queria poder encontrar uma pessoa que pudesse a fazer ser completamente honesta.

A menina de cabelos ruivos e andar esguio não se questionava apenas no âmbito sentimental. Esse era, sem dúvida, um tema recorrente que a perseguia, mas não o único. Questionava ainda sua posição no mundo.

Sentia-se desimportante. Em determinada ocasião, retomando à sua infância, seus pais a esqueceram no colégio por duas horas além do previsto. Isso só reforçou, desde então, sua dispensabilidade.

Um dos seus maiores medos era parecer inconveniente, pedante. E às vezes pecava mais pela falta do que pelo excesso. É uma amiga distante. Conversa, procura manter as amizades, mas não é assídua nesse sentido.

Tem poucos amigos, mas pode contar com eles para o que precisar.

- Mc chicken? (com um som bem nasalado). Pra comer aqui ou pra viagem?

Ela não sabia responder àquela pergunta. Ficou atônita por um tempo, enrolando a enorme fila da lanchonete e raciocinando sobre a vida sem parecer chegar à conclusão alguma. Por fim, saiu e, como se ainda estivesse em outra dimensão, engoliu o sanduíche sem perceber o que fazia.

E assim se passaram alguns dias, meses, anos, nessa reflexão infinita. Sua angústia preocupava aqueles que estavam à sua volta. Ela que já era introspectiva, foi ficando cada vez mais fechada, se sentindo mal consigo mesma, feia, incompetente, desprovida de inteligência e de quaisquer outras qualidades. Além de tudo se sentia um peso por depender de seus pais.

Já não estava tão jovem e os planos de constituir família e ter filhos ia se esvaindo. Com tantas opções mais interessantes que ela, qual seria o seu diferencial? Seu mundo que já não era lá tão colorido foi ficando cada vez mais cinza, esbranquiçado, disforme.

Foi nesse momento que a indicaram a análise, a meditação e a prática contínua do autoconhecimento. Aurora foi racionalizando medos antigos, percebendo os desvios que a haviam trazido até aquele momento e encarando de frente seus problemas. Responsabilizou-se a partir daquele momento por sua vida.

Gostaria de iniciar esse novo parágrafo dizendo que tudo se transformou e que ,em um passe de mágica, Aurora se tornou mais confiante, que descobriu o caminho a seguir, sua beleza interior e tudo o mais que procurava. Não foi bem assim... Crises houveram, momentos de fraqueza, de dúvidas e não consigo precisar se esses ainda não se repetirão. O processo é lento e gradual, mas Aurora continua firme no propósito de se melhorar a cada dia.

- Miguel, vamos ao divã?

Ao sair da sessão, seus olhares se cruzaram. Um sorriso discreto veio junto. Quem sabe?