sábado, 31 de agosto de 2013

Crise renal



            Thályssa Kelly tinha quinze anos quando conheceu Protógenes. Ele, com seus trinta e tantos, precisava de uma companheira para cuidar da casa e procriar. Queria deixar descendentes. Uma dúzia deles. Foi então que resolveu convidar Thályssa para com ele morar.

            Esta, por sua vez, ansiava por sair de casa, visto que não mais aguentava ver a genitora sofrer nas mãos de seu pai que, bêbado e enciumado, surrava-lhe por todo e qualquer motivo. A mãe ainda não o havia denunciado por medo e receio de que ele cumprisse as ameaças de morte que constantemente fazia. Pelo mesmo motivo Thályssa se calava, com pesar em ver a perpetuação da desgraça de sua mãe.

            A menina, que já não era mais virgem, havia sido deflorada por um tio próximo e perdera a idealização no amor. Todavia pensava ela que o casamento, ou nesse caso, o morar junto, a união estável significariam a libertação daquele ambiente conturbado e, portanto, ansiava por isso com um inocente brilho no olhar.

            A família não se opôs à união. O pai até gostou, já que necessitaria preocupar-se de agora em diante apenas com os quatro filhos que, menores, ainda estavam sob sua responsabilidade. A mãe parecia inicialmente temerosa, mas entregou a filha nas mãos de Deus e rezava por esta todas as noites, implorando a Ele para que ela tivesse um destino diferente do seu.

            Chegou o dia da mudança. As malas, surradas, já estavam abarrotadas de roupas, bijuterias e algumas lembranças da infância não tão distante. Um almoço foi organizado pelo pai da moça como forma de celebrar a união do casal, além de um agradecimento implícito à Protógenes por retirá-la de sua asa, de sua responsabilidade.

            A menina-moça sorriu e dançou naquele almoço que congregou a todos da rua. Fartou-se da comida da mãe e, ao vê-la, percebeu que a deixaria ao relento, nas mãos daquele marido truculento e incompreensivo. Por um momento pensou em desistir, mas não o fez. Assim como a mãe, a menina reza por aquela todos os dias, e pede pela felicidade e harmonia daquele lar.

            Os irmãos despediram-se chorosos da irmã, mesmo sabendo que ela não se mudaria para tão longe. Bastavam dois ônibus para que pudessem se encontrar. Mesmo assim, abraçaram-na intensamente.

            A recém-juntada partiu com seu companheiro e preferiu não olhar para trás. Enxugava uma lágrima que teimava em escorrer ao mesmo tempo em que estampava um sorriso tímido em seu rosto rosáceo.

            Ela não sabia muita coisa sobre seu amásio. Ele era amigo de seu pai e trabalhava com este no ramo da construção civil. Foi numa festa de família que foram apresentados por aquele e começaram a se encontrar ocasionalmente. Sabia pouco: que ele já havia se casado anteriormente, que torcia para o Fluminense e que veio do Tocantins. Sabia ainda que ele tinha problema nos rins. Veio descobrir mais com a convivência diária.

            Apesar do pouco estudo, Protógenes se atrevia a escrever uns pequenos e prosaicos versos à amada. Entregava-os junto com uma caixa de bombom da Erlan em datas comemorativas.

            Ele bebia socialmente e não era dado à farra até altas horas. Também não fazia uso de tóxicos de nenhuma espécie. Não tinha religião, mas respeitava a fé católica fervorosa da parceira. Tinha como defeito a jogatina exacerbada. Apostava no bicho sempre que tinha dinheiro. Apesar de ganhar às vezes, perdia em proporção bem maior. Também não era calmo e, com o pavio curto, estressava-se por qualquer besteira, principalmente por ciúmes de Thályssa. Nesse ponto, assemelhava-se ao seu pai.

            Os primeiros meses de relacionamento foram tranquilos e seguidos de uma gravidez benquista por ambos. Thályssa fazia bicos como manicure e passadeira, além de vender produtos da Avon para suas clientes. Os bicos eram conciliados maestosamente com a arrumação da casa e o zelo com o marido, principalmente nos períodos de crise renal deste.
            A menina, que ganhava e guardava algumas de suas economias, sentiu o gosto da independência da qual sua mãe sempre a incentivou conquistar. O que ganhava não era muito, mas como ainda estava nova, poderia fazer cursos e se profissionalizar.

            Visitava a mãe aos finais de semana e percebia os hematomas desta cobertos porcamente com uma base e pó compacto com os quais a havia presenteado. Sentiu pena e pensou em levá-la à delegacia para prestarem queixa.

            Todavia, ela ainda não tinha condições de acolher sua mãe em sua residência e o pai repetia a todos que quisessem ouvir que não deixaria a residência do casal em hipótese alguma. Afirmava que mataria aquele que o tentasse fazer.

            Isto apenas a impulsionou a buscar a independência ampla e irrestrita a fim de que pudesse cuidar de si, dos futuros filhos e de sua genitora caso o marido se transformasse no reflexo de seu pai. Foi então que, vendo o jornal, soube de um curso gratuito de costura e decidiu fazê-lo.

            O amásio, cujo consentimento não havia sido requisitado, sentiu-se irritado de início, porém concordou com a escolha da garota sem, contudo, apoiá-la. Passados quatro meses de curso, a menina, amadurecida pela vida, terminou-o e foi admitida a título de experiência em uma confecção.

            O novo trabalho ocupava boa parte de seu dia. O restante dele era preenchido pelos deveres domésticos de manutenção do lar. O tempo para o cônjuge era ínfimo. Ele, que também trabalhava de sol a sol, chegava em casa e encontrava a mulher abatida e sem ânimo nem para com ele conversar.

            Passado o primeiro ano da união, com a primeira filha nascida e outro por vir, o relacionamento foi se desgastando e caindo na rotina. Os poemas que já eram ralos, agora nem mais existiam. Thályssa, que se arrumava bastante às sextas-feiras para ir à bodega com Protógenes, agora nem isso o fazia. Deixava-o ir sozinho e não importava se este voltava tarde.
            A bebida tornou-se a companheira das noites do velho-moço. Apesar da constante formação de pedras nos rins, Protógenes não mais resistia a uma tulipa de cerveja bem gelada para estancar suas aflições. Encontrava nela a cumplicidade que sua senhora não fazia questão de suprir.

            Em certa data, ouviu no noticiário, na televisão do bar, que o álcool inibe um hormônio antidiurético produzido pelo organismo, chamado vasopressina. Que esse hormônio faz o corpo reabsorver certa quantidade de água existente na urina, impedindo a desidratação. O médico da reportagem explicou que, com o álcool na corrente sanguínea, toda a água que seria reaproveitada é excretada, facilitando a formação de microcristais nos rins.

            Apesar de não entender boa parte da reportagem, demonstrou preocupação pela frase exarada pelo médico. Ainda mais porque ele já era predisposto à formação de cálculos renais. A preocupação passou com o primeiro gole de cerveja que ingeriu e foi diminuindo com os subsequentes.

            Nesta data, Protógenes chegou em casa extremamente alterado e proferiu inúmeros xingamentos à pessoa de Thályssa. Disse haver se arrependido de tê-la trazido a morar com ele e que só tormentos havia trazido à sua vida. Que ela não merecia o homem que ele é e que, se fosse como seu pai, já a teria esmurrado à beira da morte tamanha insolência.

            Logo após dito isso, rolou de dor no carpete da sala. Os rins atacavam novamente. A menina-mulher pensou em não socorrê-lo. Pensou em arrumar as malas e seguir seu rumo juntamente com a filha recém-nascida. Mas algo a dizia para ficar. 

            Teimou em aceitar aquela ideia e, por fim, preparou um chá de quebra pedras para o companheiro.  Este a prometeu que daquele dia em diante cuidaria melhor de sua saúde. Porém não o fez. Continuou na jogatina desenfreada potencializada pelo uso do álcool. Dizia que a bebida aumentava sua sorte.

            Chegava em casa e xingava a vítima de nomes cada vez mais sujos. Certo dia, tamanha a bebedeira, desferiu um tapa no rosto desta. Logo depois destes picos de agressividade e estresse o companheiro reclamava cada vez mais frequentemente de dores na região dos rins.

            A mulher-vítima lembrou-se dos hematomas de sua mãe cuja maquiagem não mais os encobria. Escondeu a vermelhidão em seu rosto e fez com que o autor das agressões, que se recusava a procurar um médico, ingerisse bastante liquido.  

            Cuidava da casa, zelava de seus filhos e costurava desenfreadamente. Sua máquina de costura não parava um segundo. À noite cumpria sua obrigação conjugal deitando-se com o marido, que a cada dia mais ébrio era mais agressivo e menos carinhoso.

            A máquina de costura trabalhava barulhenta às madrugadas. Felizmente o sono do bêbado era pesado. O turno na empresa havia sido dobrado e ela conseguira uma promoção. Passou a ganhar consideravelmente melhor.

            As dores vinham intensas agora diariamente. A bebida aliviava e encaminhava-o ao seu fim. Apesar da doença o deixar fraco, isto não o impedia de levantar a mão à mulher e humilhá-la. Ela lhe limpava o vômito alcoólico e preparava-lhe o banho.

            Costurava e as lágrimas caiam sobre a lã, a seda e o cetim. Enxugou-as e acelerou a finalização de um cós. Ao amanhecer ligou para a mãe e ambas trocaram tristes novidades.

            Mais um ano se passou. Thályssa assistiu à virada do ano na Globo e dormiu. Foi acordada pelo amásio que, bêbado como de costume, reclamava-lhe de dores agudas. Não mais conseguiu dormir e então costurou até o nascer do sol.

            Arrumou sua casa pela última vez. Pegou suas economias, seus filhos, algumas roupas e suas lembranças da não tão longínqua, mas saudosa infância. Passou na casa de sua mãe e ambas partiram rumo a local incerto e não sabido.

            Ao acordar, Protógenes encontrou um chá de quebra pedras morno.















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