Esta,
por sua vez, ansiava por sair de casa, visto que não mais aguentava ver a
genitora sofrer nas mãos de seu pai que, bêbado e enciumado, surrava-lhe por
todo e qualquer motivo. A mãe ainda não o havia denunciado por medo e receio de
que ele cumprisse as ameaças de morte que constantemente fazia. Pelo mesmo
motivo Thályssa se calava, com pesar em ver a perpetuação da desgraça de sua
mãe.
A
menina, que já não era mais virgem, havia sido deflorada por um tio próximo e
perdera a idealização no amor. Todavia pensava ela que o casamento, ou nesse
caso, o morar junto, a união estável significariam a libertação daquele
ambiente conturbado e, portanto, ansiava por isso com um inocente brilho no
olhar.
A
família não se opôs à união. O pai até gostou, já que necessitaria preocupar-se
de agora em diante apenas com os quatro filhos que, menores, ainda estavam sob
sua responsabilidade. A mãe parecia inicialmente temerosa, mas entregou a filha
nas mãos de Deus e rezava por esta todas as noites, implorando a Ele para que
ela tivesse um destino diferente do seu.
Chegou
o dia da mudança. As malas, surradas, já estavam abarrotadas de roupas,
bijuterias e algumas lembranças da infância não tão distante. Um almoço foi
organizado pelo pai da moça como forma de celebrar a união do casal, além de um
agradecimento implícito à Protógenes por retirá-la de sua asa, de sua responsabilidade.
A
menina-moça sorriu e dançou naquele almoço que congregou a todos da rua.
Fartou-se da comida da mãe e, ao vê-la, percebeu que a deixaria ao relento, nas
mãos daquele marido truculento e incompreensivo. Por um momento pensou em
desistir, mas não o fez. Assim como a mãe, a menina reza por aquela todos os
dias, e pede pela felicidade e harmonia daquele lar.
Os
irmãos despediram-se chorosos da irmã, mesmo sabendo que ela não se mudaria
para tão longe. Bastavam dois ônibus para que pudessem se encontrar. Mesmo
assim, abraçaram-na intensamente.
A
recém-juntada partiu com seu companheiro e preferiu não olhar para trás.
Enxugava uma lágrima que teimava em escorrer ao mesmo tempo em que estampava um
sorriso tímido em seu rosto rosáceo.
Ela
não sabia muita coisa sobre seu amásio. Ele era amigo de seu pai e trabalhava
com este no ramo da construção civil. Foi numa festa de família que foram
apresentados por aquele e começaram a se encontrar ocasionalmente. Sabia pouco:
que ele já havia se casado anteriormente, que torcia para o Fluminense e que
veio do Tocantins. Sabia ainda que ele tinha problema nos rins. Veio descobrir
mais com a convivência diária.
Apesar
do pouco estudo, Protógenes se atrevia a escrever uns pequenos e prosaicos
versos à amada. Entregava-os junto com uma caixa de bombom da Erlan em datas
comemorativas.
Ele
bebia socialmente e não era dado à farra até altas horas. Também não fazia uso
de tóxicos de nenhuma espécie. Não tinha religião, mas respeitava a fé católica
fervorosa da parceira. Tinha como defeito a jogatina exacerbada. Apostava no
bicho sempre que tinha dinheiro. Apesar de ganhar às vezes, perdia em proporção
bem maior. Também não era calmo e, com o pavio curto, estressava-se por
qualquer besteira, principalmente por ciúmes de Thályssa. Nesse ponto,
assemelhava-se ao seu pai.
Os
primeiros meses de relacionamento foram tranquilos e seguidos de uma gravidez
benquista por ambos. Thályssa fazia bicos como manicure e passadeira, além de
vender produtos da Avon para suas clientes. Os bicos eram conciliados
maestosamente com a arrumação da casa e o zelo com o marido, principalmente nos
períodos de crise renal deste.
A
menina, que ganhava e guardava algumas de suas economias, sentiu o gosto da
independência da qual sua mãe sempre a incentivou conquistar. O que ganhava não
era muito, mas como ainda estava nova, poderia fazer cursos e se
profissionalizar.
Visitava
a mãe aos finais de semana e percebia os hematomas desta cobertos porcamente
com uma base e pó compacto com os quais a havia presenteado. Sentiu pena e
pensou em levá-la à delegacia para prestarem queixa.
Todavia,
ela ainda não tinha condições de acolher sua mãe em sua residência e o pai
repetia a todos que quisessem ouvir que não deixaria a residência do casal em hipótese
alguma. Afirmava que mataria aquele que o tentasse fazer.
Isto
apenas a impulsionou a buscar a independência ampla e irrestrita a fim de que
pudesse cuidar de si, dos futuros filhos e de sua genitora caso o marido se
transformasse no reflexo de seu pai. Foi então que, vendo o jornal, soube de um
curso gratuito de costura e decidiu fazê-lo.
O
amásio, cujo consentimento não havia sido requisitado, sentiu-se irritado de
início, porém concordou com a escolha da garota sem, contudo, apoiá-la. Passados
quatro meses de curso, a menina, amadurecida pela vida, terminou-o e foi
admitida a título de experiência em uma confecção.
O
novo trabalho ocupava boa parte de seu dia. O restante dele era preenchido
pelos deveres domésticos de manutenção do lar. O tempo para o cônjuge era
ínfimo. Ele, que também trabalhava de sol a sol, chegava em casa e encontrava a
mulher abatida e sem ânimo nem para com ele conversar.
Passado
o primeiro ano da união, com a primeira filha nascida e outro por vir, o
relacionamento foi se desgastando e caindo na rotina. Os poemas que já eram
ralos, agora nem mais existiam. Thályssa, que se arrumava bastante às
sextas-feiras para ir à bodega com Protógenes, agora nem isso o fazia.
Deixava-o ir sozinho e não importava se este voltava tarde.
A
bebida tornou-se a companheira das noites do velho-moço. Apesar da constante
formação de pedras nos rins, Protógenes não mais resistia a uma tulipa de
cerveja bem gelada para estancar suas aflições. Encontrava nela a cumplicidade
que sua senhora não fazia questão de suprir.
Em
certa data, ouviu no noticiário, na televisão do bar, que o álcool inibe um
hormônio antidiurético produzido pelo organismo, chamado vasopressina. Que esse
hormônio faz o corpo reabsorver certa quantidade de água existente na urina,
impedindo a desidratação. O médico da reportagem explicou que, com o álcool na
corrente sanguínea, toda a água que seria reaproveitada é excretada,
facilitando a formação de microcristais nos rins.
Apesar
de não entender boa parte da reportagem, demonstrou preocupação pela frase
exarada pelo médico. Ainda mais porque ele já era predisposto à formação de
cálculos renais. A preocupação passou com o primeiro gole de cerveja que
ingeriu e foi diminuindo com os subsequentes.
Nesta
data, Protógenes chegou em casa extremamente alterado e proferiu inúmeros
xingamentos à pessoa de Thályssa. Disse haver se arrependido de tê-la trazido a
morar com ele e que só tormentos havia trazido à sua vida. Que ela não merecia
o homem que ele é e que, se fosse como seu pai, já a teria esmurrado à beira da
morte tamanha insolência.
Logo
após dito isso, rolou de dor no carpete da sala. Os rins atacavam novamente. A
menina-mulher pensou em não socorrê-lo. Pensou em arrumar as malas e seguir seu
rumo juntamente com a filha recém-nascida. Mas algo a dizia para ficar.
Teimou
em aceitar aquela ideia e, por fim, preparou um chá de quebra pedras para o
companheiro. Este a prometeu que daquele
dia em diante cuidaria melhor de sua saúde. Porém não o fez. Continuou na
jogatina desenfreada potencializada pelo uso do álcool. Dizia que a bebida
aumentava sua sorte.
Chegava
em casa e xingava a vítima de nomes cada vez mais sujos. Certo dia, tamanha a
bebedeira, desferiu um tapa no rosto desta. Logo depois destes picos de
agressividade e estresse o companheiro reclamava cada vez mais frequentemente
de dores na região dos rins.
A
mulher-vítima lembrou-se dos hematomas de sua mãe cuja maquiagem não mais os
encobria. Escondeu a vermelhidão em seu rosto e fez com que o autor das agressões,
que se recusava a procurar um médico, ingerisse bastante liquido.
Cuidava
da casa, zelava de seus filhos e costurava desenfreadamente. Sua máquina de
costura não parava um segundo. À noite cumpria sua obrigação conjugal
deitando-se com o marido, que a cada dia mais ébrio era mais agressivo e menos
carinhoso.
A
máquina de costura trabalhava barulhenta às madrugadas. Felizmente o sono do
bêbado era pesado. O turno na empresa havia sido dobrado e ela conseguira uma
promoção. Passou a ganhar consideravelmente melhor.
As
dores vinham intensas agora diariamente. A bebida aliviava e encaminhava-o ao
seu fim. Apesar da doença o deixar fraco, isto não o impedia de levantar a mão
à mulher e humilhá-la. Ela lhe limpava o vômito alcoólico e preparava-lhe o banho.
Costurava
e as lágrimas caiam sobre a lã, a seda e o cetim. Enxugou-as e acelerou a
finalização de um cós. Ao amanhecer ligou para a mãe e ambas trocaram tristes
novidades.
Mais
um ano se passou. Thályssa assistiu à virada do ano na Globo e dormiu. Foi
acordada pelo amásio que, bêbado como de costume, reclamava-lhe de dores
agudas. Não mais conseguiu dormir e então costurou até o nascer do sol.
Arrumou
sua casa pela última vez. Pegou suas economias, seus filhos, algumas roupas e
suas lembranças da não tão longínqua, mas saudosa infância. Passou na casa de
sua mãe e ambas partiram rumo a local incerto e não sabido.
Ao
acordar, Protógenes encontrou um chá de quebra pedras morno.
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