sábado, 31 de agosto de 2013

Outro tempo começou


Então me vejo cercada de um vazio imenso
Que ocupa os não tão tênues vales do meu sofrer
Dando corpo a um sentimento de não sei o quê
Que chega de repente e sai sem se fazer perceber

O marasmo ataca novamente
Impregnando as entranhas tristes do meu eu
Parece que vai ser pra sempre
Parece que já não tenho um parecer
Parece que é somente aquilo que aparenta não ser

No embaraço de uma mente confusa
Palavras avulsas ganham materialidade
E tingem o papel branco e imenso
Com uma total liberdade, ousadia e espontaneidade
Como peças colhidas na construção de um belo jardim suspenso

Suspendam agora minha bebida
O fluido suave e tinto que me permite divagar
Que me transforma em artista, ou ainda numa bela vista
Que emoldurada janela (estática e “na dela”)
Coloca-se a me admirar e suspirar bem devagar

Outro tempo começou
Agora tudo é paz, tudo é beleza
Adeus pra ti tristeza
Saudades não vai mais deixar

Mas eu sei que um dia ainda volta
Desenterrando a minha inocente dormência
Reavivando com força a minha revolta
Trazendo a tona minhas vivências

E fazendo da saudade sua fiel escolta

Sofá away

Tão distante daquele olhar
E tão próximo de algum lugar
O coração do homem aflito batia veloz
Esperando uma canção antiga
Na cantiga de uma velha amiga
Senhora de veludosa voz

Sua lira despertava a paz
Os acordes incitavam mais
A jogatina e o rum potencializavam emoções
Um choro contido ganhou proporção
A prostituta usada limpou o borrão
E ao fim da música todos procuravam explicações

Tão distante daquele olhar
Agora distante de qualquer lugar
O mesmo homem dormia
Ébrio e embaixo da pia

Procurando momento certo de parar.

Crise renal



            Thályssa Kelly tinha quinze anos quando conheceu Protógenes. Ele, com seus trinta e tantos, precisava de uma companheira para cuidar da casa e procriar. Queria deixar descendentes. Uma dúzia deles. Foi então que resolveu convidar Thályssa para com ele morar.

            Esta, por sua vez, ansiava por sair de casa, visto que não mais aguentava ver a genitora sofrer nas mãos de seu pai que, bêbado e enciumado, surrava-lhe por todo e qualquer motivo. A mãe ainda não o havia denunciado por medo e receio de que ele cumprisse as ameaças de morte que constantemente fazia. Pelo mesmo motivo Thályssa se calava, com pesar em ver a perpetuação da desgraça de sua mãe.

            A menina, que já não era mais virgem, havia sido deflorada por um tio próximo e perdera a idealização no amor. Todavia pensava ela que o casamento, ou nesse caso, o morar junto, a união estável significariam a libertação daquele ambiente conturbado e, portanto, ansiava por isso com um inocente brilho no olhar.

            A família não se opôs à união. O pai até gostou, já que necessitaria preocupar-se de agora em diante apenas com os quatro filhos que, menores, ainda estavam sob sua responsabilidade. A mãe parecia inicialmente temerosa, mas entregou a filha nas mãos de Deus e rezava por esta todas as noites, implorando a Ele para que ela tivesse um destino diferente do seu.

            Chegou o dia da mudança. As malas, surradas, já estavam abarrotadas de roupas, bijuterias e algumas lembranças da infância não tão distante. Um almoço foi organizado pelo pai da moça como forma de celebrar a união do casal, além de um agradecimento implícito à Protógenes por retirá-la de sua asa, de sua responsabilidade.

            A menina-moça sorriu e dançou naquele almoço que congregou a todos da rua. Fartou-se da comida da mãe e, ao vê-la, percebeu que a deixaria ao relento, nas mãos daquele marido truculento e incompreensivo. Por um momento pensou em desistir, mas não o fez. Assim como a mãe, a menina reza por aquela todos os dias, e pede pela felicidade e harmonia daquele lar.

            Os irmãos despediram-se chorosos da irmã, mesmo sabendo que ela não se mudaria para tão longe. Bastavam dois ônibus para que pudessem se encontrar. Mesmo assim, abraçaram-na intensamente.

            A recém-juntada partiu com seu companheiro e preferiu não olhar para trás. Enxugava uma lágrima que teimava em escorrer ao mesmo tempo em que estampava um sorriso tímido em seu rosto rosáceo.

            Ela não sabia muita coisa sobre seu amásio. Ele era amigo de seu pai e trabalhava com este no ramo da construção civil. Foi numa festa de família que foram apresentados por aquele e começaram a se encontrar ocasionalmente. Sabia pouco: que ele já havia se casado anteriormente, que torcia para o Fluminense e que veio do Tocantins. Sabia ainda que ele tinha problema nos rins. Veio descobrir mais com a convivência diária.

            Apesar do pouco estudo, Protógenes se atrevia a escrever uns pequenos e prosaicos versos à amada. Entregava-os junto com uma caixa de bombom da Erlan em datas comemorativas.

            Ele bebia socialmente e não era dado à farra até altas horas. Também não fazia uso de tóxicos de nenhuma espécie. Não tinha religião, mas respeitava a fé católica fervorosa da parceira. Tinha como defeito a jogatina exacerbada. Apostava no bicho sempre que tinha dinheiro. Apesar de ganhar às vezes, perdia em proporção bem maior. Também não era calmo e, com o pavio curto, estressava-se por qualquer besteira, principalmente por ciúmes de Thályssa. Nesse ponto, assemelhava-se ao seu pai.

            Os primeiros meses de relacionamento foram tranquilos e seguidos de uma gravidez benquista por ambos. Thályssa fazia bicos como manicure e passadeira, além de vender produtos da Avon para suas clientes. Os bicos eram conciliados maestosamente com a arrumação da casa e o zelo com o marido, principalmente nos períodos de crise renal deste.
            A menina, que ganhava e guardava algumas de suas economias, sentiu o gosto da independência da qual sua mãe sempre a incentivou conquistar. O que ganhava não era muito, mas como ainda estava nova, poderia fazer cursos e se profissionalizar.

            Visitava a mãe aos finais de semana e percebia os hematomas desta cobertos porcamente com uma base e pó compacto com os quais a havia presenteado. Sentiu pena e pensou em levá-la à delegacia para prestarem queixa.

            Todavia, ela ainda não tinha condições de acolher sua mãe em sua residência e o pai repetia a todos que quisessem ouvir que não deixaria a residência do casal em hipótese alguma. Afirmava que mataria aquele que o tentasse fazer.

            Isto apenas a impulsionou a buscar a independência ampla e irrestrita a fim de que pudesse cuidar de si, dos futuros filhos e de sua genitora caso o marido se transformasse no reflexo de seu pai. Foi então que, vendo o jornal, soube de um curso gratuito de costura e decidiu fazê-lo.

            O amásio, cujo consentimento não havia sido requisitado, sentiu-se irritado de início, porém concordou com a escolha da garota sem, contudo, apoiá-la. Passados quatro meses de curso, a menina, amadurecida pela vida, terminou-o e foi admitida a título de experiência em uma confecção.

            O novo trabalho ocupava boa parte de seu dia. O restante dele era preenchido pelos deveres domésticos de manutenção do lar. O tempo para o cônjuge era ínfimo. Ele, que também trabalhava de sol a sol, chegava em casa e encontrava a mulher abatida e sem ânimo nem para com ele conversar.

            Passado o primeiro ano da união, com a primeira filha nascida e outro por vir, o relacionamento foi se desgastando e caindo na rotina. Os poemas que já eram ralos, agora nem mais existiam. Thályssa, que se arrumava bastante às sextas-feiras para ir à bodega com Protógenes, agora nem isso o fazia. Deixava-o ir sozinho e não importava se este voltava tarde.
            A bebida tornou-se a companheira das noites do velho-moço. Apesar da constante formação de pedras nos rins, Protógenes não mais resistia a uma tulipa de cerveja bem gelada para estancar suas aflições. Encontrava nela a cumplicidade que sua senhora não fazia questão de suprir.

            Em certa data, ouviu no noticiário, na televisão do bar, que o álcool inibe um hormônio antidiurético produzido pelo organismo, chamado vasopressina. Que esse hormônio faz o corpo reabsorver certa quantidade de água existente na urina, impedindo a desidratação. O médico da reportagem explicou que, com o álcool na corrente sanguínea, toda a água que seria reaproveitada é excretada, facilitando a formação de microcristais nos rins.

            Apesar de não entender boa parte da reportagem, demonstrou preocupação pela frase exarada pelo médico. Ainda mais porque ele já era predisposto à formação de cálculos renais. A preocupação passou com o primeiro gole de cerveja que ingeriu e foi diminuindo com os subsequentes.

            Nesta data, Protógenes chegou em casa extremamente alterado e proferiu inúmeros xingamentos à pessoa de Thályssa. Disse haver se arrependido de tê-la trazido a morar com ele e que só tormentos havia trazido à sua vida. Que ela não merecia o homem que ele é e que, se fosse como seu pai, já a teria esmurrado à beira da morte tamanha insolência.

            Logo após dito isso, rolou de dor no carpete da sala. Os rins atacavam novamente. A menina-mulher pensou em não socorrê-lo. Pensou em arrumar as malas e seguir seu rumo juntamente com a filha recém-nascida. Mas algo a dizia para ficar. 

            Teimou em aceitar aquela ideia e, por fim, preparou um chá de quebra pedras para o companheiro.  Este a prometeu que daquele dia em diante cuidaria melhor de sua saúde. Porém não o fez. Continuou na jogatina desenfreada potencializada pelo uso do álcool. Dizia que a bebida aumentava sua sorte.

            Chegava em casa e xingava a vítima de nomes cada vez mais sujos. Certo dia, tamanha a bebedeira, desferiu um tapa no rosto desta. Logo depois destes picos de agressividade e estresse o companheiro reclamava cada vez mais frequentemente de dores na região dos rins.

            A mulher-vítima lembrou-se dos hematomas de sua mãe cuja maquiagem não mais os encobria. Escondeu a vermelhidão em seu rosto e fez com que o autor das agressões, que se recusava a procurar um médico, ingerisse bastante liquido.  

            Cuidava da casa, zelava de seus filhos e costurava desenfreadamente. Sua máquina de costura não parava um segundo. À noite cumpria sua obrigação conjugal deitando-se com o marido, que a cada dia mais ébrio era mais agressivo e menos carinhoso.

            A máquina de costura trabalhava barulhenta às madrugadas. Felizmente o sono do bêbado era pesado. O turno na empresa havia sido dobrado e ela conseguira uma promoção. Passou a ganhar consideravelmente melhor.

            As dores vinham intensas agora diariamente. A bebida aliviava e encaminhava-o ao seu fim. Apesar da doença o deixar fraco, isto não o impedia de levantar a mão à mulher e humilhá-la. Ela lhe limpava o vômito alcoólico e preparava-lhe o banho.

            Costurava e as lágrimas caiam sobre a lã, a seda e o cetim. Enxugou-as e acelerou a finalização de um cós. Ao amanhecer ligou para a mãe e ambas trocaram tristes novidades.

            Mais um ano se passou. Thályssa assistiu à virada do ano na Globo e dormiu. Foi acordada pelo amásio que, bêbado como de costume, reclamava-lhe de dores agudas. Não mais conseguiu dormir e então costurou até o nascer do sol.

            Arrumou sua casa pela última vez. Pegou suas economias, seus filhos, algumas roupas e suas lembranças da não tão longínqua, mas saudosa infância. Passou na casa de sua mãe e ambas partiram rumo a local incerto e não sabido.

            Ao acordar, Protógenes encontrou um chá de quebra pedras morno.















A ajuda


Guilbert. Esse era um nome que todos na pacata cidade de Bacabal conheciam bem. Não havia viválma na cidade que não enchesse os olhos de lágrimas quando o nome do garoto era pronunciado. Lágrimas orgulhosas, de afeto e admiração.

Também pudera, numa cidade em que mais de setenta por cento da população não sabia assinar o próprio nome, o menino Guilbert, persistente que era, conseguiu passar em um vestibular concorrido para Medicina.

Todos na cidade colaboravam para a formação do menino prodígio. Seu Manoel tirava do pão de todo dia para poder contribuir. Dona Josefa dobrava o turno na venda de tapioca para inteirar o auxílio do mês. A cidade inteira se mobilizava nesta causa tão sublime.

Isto porque o menino vivia com sua avó materna, uma senhorinha de oitenta e poucos anos que tirava seu sustento da aposentadoria do marido, que em seus tempos áureos havia sido militar. Deste modo, dona Deolina, apesar de ansiar pelo sucesso do neto, não poderia ajudá-lo a realizar seu grande sonho.

Tudo começou quando Guilbert, por um acaso, passou em frente à enfermaria/hospital da cidade. O menino, à época com quatorze anos de idade, fixou o olhar em uma criança abatida, de idade próxima à dele que lhe implorou por socorro.

Socorro? Mas como aquele menino poderia ajudar? Ele não possuía conhecimentos médicos. Ele era só uma criança.

O menino permaneceu inerte por alguns minutos. Parecia tentar processar a informação e procurar uma resposta plausível para o apelo que o havia sido feito. Nada vinha à sua mente.
Esgotada a sua energia mental, o menino correu daquele local o mais rápido que pôde e prometeu a si mesmo que só voltaria ali quando realmente pudesse ser útil e ajudar. Quando tivesse na ponta da língua uma resposta para as aflições físicas dos seus iguais.

Foi então que toda essa idéia de estudar medicina apareceu no consciente de Guilbert.

Naquele tempo, o menino estudava na Escola Municipal Ferreira Goulart. O traslado de casa à escola demorava cerca de duas horas à pé. Na volta ele conseguia carona com um carroceiro vizinho e isto o economizava uma hora.

A escola, apesar de não possuir uma boa estrutura física, contava com uma biblioteca razoável e professores que, apesar das diversidades e da baixa remuneração, faziam de tudo para auxiliar àqueles cujo destino poderia ser revertido graças à educação.

Antes deste insight, Guilbert era conhecido na escola como o devorador de livros. Ele não se sobressaía nos esportes e nunca foi muito sociável (possuía alguns poucos e fiéis amigos). Desta forma, encontrou na leitura uma forma de distração instrutiva.

O menino lia tudo. Não descartava um livro por tratar-se de assunto que não possuía conhecimento. Eram estes os livros que mais o deixavam instigado. Leu sobre a História Grega antiga, sobre a evolução da eletrônica, entre outros temas avulsos.

Guilbert então, dotado de sua ânsia em tornar-se médico, pediu auxílio à sua professora de Ciências Humanas. Pediu a esta uma estratégia de estudo, um direcionamento e uma sugestão de matérias a serem estudadas a fundo.

A professora, em um primeiro momento pensou que o pedido do garoto não passava de um impulso passageiro e repentino. Todavia, tendo em vista a insistência dele naquele tema, fez questão de disponibilizar algum tempo de sua ocupada agenda para montar um plano de estudos para o garoto.

Este, disciplinado como era, cumpriu a risca o determinado pela professora. A partir de então foi aumentando por conta própria a carga horária destinada aos estudos e após três anos de determinação e superação diárias, o menino finalmente teve a chance de prestar vestibular.

Infelizmente não passou na primeira tentativa, visto que a concorrência para o curso desejado era monstruosa. Todavia, isto não o abateu hipótese alguma. Algo o dizia para continuar tentando e não desistir.

Foi então que na terceira tentativa Guilbert realizou seu grande sonho.

No dia em que a souberam da aprovação do menino, a cidade inteira entrou em festa. Seu Joaquim fechou a barbearia antes de acabar o expediente para oferecer um arroz de cuxá ao vitorioso.

 O prefeito da cidade, que tinha como foco a reeleição, estendeu faixas de congratulação pela cidade em homenagem ao mais novo universitário da região.

A vó Deolina despedia-se de neto com o coraçãozinho apertado. Ele era sua única companhia, descontando a de seus animais de estimação. As lágrimas rolavam em seu rosto em uma profusão de sentimentos, dentre eles: orgulho, emoção e saudade.

A escola municipal se mobilizou e, antenados nas leis de incentivo à educação, os professores conseguiram inscrever Guilbert em programas governamentais. Este não deveria preocupar-se com despesas no que concerne à moradia e livros.

Quanto à alimentação, lhe seria entregue um cartão com reposição mensal de fundos a fito de que este pudesse desfrutar do almoço saudável e balanceado servido no Restaurante Universitário.

Restava ao jovem arcar com gastos de transporte, vestimenta e alguns outros. Foi então que a cidade em peso, em reunião no coreto, decidiu contribuir com R$ 500,00 (quinhentos reais) mensais para o aprendizado de Guilbert.

O menino homem não sabia como retribuir tamanha gentileza e apreço por sua pessoa. Pensou bastante sobre ter de deixar a avó sozinha e decidiu que era necessário.

Zarpou então rumo a terra desconhecida. A cidade era grande e movimentada de automóveis e pessoas atordoadas. Ficou ligeiramente zonzo nos primeiros dias, porém em pouco tempo adaptou-se à mudança de ares e rotina.

Seu curso, com duração de seis anos, era integral. Quando não tinha aulas, podia ser facilmente encontrado na biblioteca.

Fez amigos na classe e nunca se esqueceu de continuar correspondendo-se com aqueles que em Bacabal deixou. Na verdade era agraciado com inúmeras cartas saudosas que sempre foram devidamente respondidas.

Passaram-se os seis anos de curso e nosso garoto formou-se com honras. Foi o orador da turma e agradeceu imensamente a todos que possibilitaram com que ele ali estivesse. Bacabal em peso compareceu na formatura do Dr. Guilbert.

A festa que começou em Imperatriz terminou em Bacabal em grande estilo: três dias da mais pura alegria maranhense.

Passada a euforia e após demonstrar todo o seu carinho na forma de abraços distribuídos a granel, o menino lembrou-se do impulso que o fez escolher aquela linda profissão e, de imediato, foi admitido como cirurgião-chefe da equipe hospitalar da enfermaria/hospital.

A região festejou imensamente, visto que nunca, na história da cidade, um médico daquela especialidade havia tomado posse. Quando a coisa ficava séria, os doentes deveriam ser imediatamente transferidos para a capital que ficava há pelo menos umas cinco horas - de carro - dali.

Guilbert então, procurando informações sobre a criança que o havia requisitado ajuda da última vez que por ali passara, descobriu, depois de checadas algumas guias de internação, que esta havia se mudado com a família para Bom Lugar, a poucos quilômetros de Bacabal e que hoje possuía vinte anos.

Como uma forma de imprimir significado a toda sua vasta e compensatória jornada acreditou ser a visita àquela criança imprescindível.

De posse do endereço, deslocou-se à cidade e tocou a campainha de uma casa bastante humilde. Atendeu a própria criança, agora uma mulher, com uma vivacidade impressionante no olhar.

Antes que o doutor pudesse pronunciar uma palavra, a garota informou que havia lembrado das feições de Guilbert e da situação em que haviam se deparado.

Após aquele haver lhe contado resumidamente seus honrosos feitos esta reconheceu-os e expressou-se numa frase que ficaria para sempre marcada na lembrança daquele médico:


--- Muito bom. Reconheço seu esforço e determinação e admiro-lhe profundamente. Todavia, lembro que o que mais precisava naquele exato momento era de um abraço e palavras reconfortantes. De coisas que não precisavam ser prescritas em uma receita.

sábado, 25 de maio de 2013

O assunto

O assunto

Este é tão procurado
Causa tanto reboliço
Será que escrevo sobre aquilo
Ou me basta escrever isso?

Horas, dias, neurônios
São despendidos nesse processo
De adivinhação ou iluminação
De insight ou retrocesso

Isso porque muitas vezes
Ao encontrar um prazeroso tema
As forças se esvaem no meio
E a finalidade se perde em um trema

Portanto basta que ele flua
Suave, tranqüilo e nato
Como uma extensão de seus pensamentos
Como a materialização do abstrato



sábado, 12 de janeiro de 2013

Superproteção

Postarei agora uma de minhas poesias arquitetadas em tempos remotos:



Presa num sofá circular
A criança procurava seus medos espantar

Com uma caneca brilhante 
Um cordão e um barbante ela aprendeu a sonhar
E foi assim tão de repente 
Que toda aquela gente parou para observar

E com uma lágrima contida 
A matriarca abatida 
Viu seu pesadelo se realizar

Aquele anjinho inocente
Já possuía em mente um plano complexo a executar
E toda a armadilha armada
Já não valia de nada, não se podia duvidar

É assim com todo filho, a mãe cria no sucrilho, 
No mingauzinho de milho pra depois ele se mandar
Todo a aquele poder investido, na mãezinha de vestido,
Hoje se encontra adormecido no mesmo velho sofá circular.

Como é que qualquer criança
Poderá enfrentar as mudanças se aquele ser ficar a empacar?
É certo que precisamos de auxílio, de afeto, 
Mas POXA, o feto um dia em homem irá se transformar!

Superproteção, uma ameaça à nossa formação
Tão dependentes seremos então
Se não caminharmos com nosso próprio caminhão.

A garota do retrato



Ela via sua própria foto no mural das lembranças. Gostava de reparar em cada detalhe daquela gravura. O vestido florido era presente de uma pessoa muito especial. As pessoas na foto, cada uma mais estonteante do que a outra, dando congratulações ao ingresso dela em uma nova fase de sua jornada: estavam em sua festa de formatura. Os olhares e as expressões de todos chamavam-na preferencialmente a atenção. Se possível gostaria de lembrar o que realmente se passava em sua mente no exato momento da foto. Será que aquela garota do retrato sabia o que estava para acontecer? Será que ela imaginaria aonde poderia chegar?   

Não. Ela simplesmente não seria capaz de compreender. Era muito imatura e sonhadora, além de possuir gostos musicais duramente repreensíveis. Sua vida ainda não possuía a complexidade que hoje possui. Suas amizades eram seladas na base da afinidade inocente e desinteressada. Intrigas, mau-caratismo, inveja não faziam parte de seus problemas cotidianos. Esses, quando existentes, eram motivados por seu desempenho escolar insuficiente nos períodos de paixonite aguda por algum garoto popular.

Ela se ria com tal leveza e desprendimento julgando-se a dona do mundo e da verdade. E seria difícil convencê-la do contrário. A foto era ostentada como um troféu tamanha beleza da figura que ele abrigava. Era divertido e ao mesmo tempo reconfortante saber que aquela garota já não existia mais. Consistia na versão esboçada da que agora a observa. Já não podia achar a foto como o símbolo máximo da perfeição, longe disso. O contexto já se perdera e não poderia ser recuperado.

Vivia agora em outro momento. Já formada, agora trabalhava em uma firma multinacional. Recentemente casada, ansiava por ter filhos. Um casal. O marido era um companheiro fiel e compreensivo. Daria um bom pai. Mas antes de uma gravidez mais que desejada por ambos, seria interessante uma segunda lua de mel na Itália regada a queijos, vinhos e um cenário encantador. Via-se pronta, madura o suficiente para poder assumir todas as responsabilidades de que fosse incumbida. Sentia-se dona do mundo. Nada poderia sair de seu controle, e se por acaso saísse, milhares de resoluções estariam arquitetadas.

A correria diária da garota foi afastando-a pouco a pouco de fitar aquele retrato. Contas a pagar, unha a fazer, trabalhos a finalizar. Agora a menina estonteante merecia apenas uma rápida passada de olho. Um sorriso amarelo de canto de boca. Um prazer diferente. Acredito ainda que logo possa vir a ser substituído por aquela nova foto, tão mais harmoniosa, que acabara de mandar revelar.