Ela via sua própria foto no mural das
lembranças. Gostava de reparar em cada detalhe daquela gravura. O vestido
florido era presente de uma pessoa muito especial. As pessoas na foto, cada uma
mais estonteante do que a outra, dando congratulações ao ingresso dela em uma
nova fase de sua jornada: estavam em sua festa de formatura. Os olhares e as
expressões de todos chamavam-na preferencialmente a atenção. Se possível
gostaria de lembrar o que realmente se passava em sua mente no exato momento da
foto. Será que aquela garota do retrato sabia o que estava para acontecer? Será
que ela imaginaria aonde poderia chegar?
Não. Ela simplesmente não seria capaz
de compreender. Era muito imatura e sonhadora, além de possuir gostos musicais
duramente repreensíveis. Sua vida ainda não possuía a complexidade que hoje
possui. Suas amizades eram seladas na base da afinidade inocente e
desinteressada. Intrigas, mau-caratismo, inveja não faziam parte de seus
problemas cotidianos. Esses, quando existentes, eram motivados por seu
desempenho escolar insuficiente nos períodos de paixonite aguda por algum
garoto popular.
Ela se ria com tal leveza e
desprendimento julgando-se a dona do mundo e da verdade. E seria difícil
convencê-la do contrário. A foto era ostentada como um troféu tamanha beleza da
figura que ele abrigava. Era divertido e ao mesmo tempo reconfortante saber que
aquela garota já não existia mais. Consistia na versão esboçada da que agora a
observa. Já não podia achar a foto como o símbolo máximo da perfeição, longe
disso. O contexto já se perdera e não poderia ser recuperado.
Vivia agora em outro momento. Já
formada, agora trabalhava em uma firma multinacional. Recentemente casada,
ansiava por ter filhos. Um casal. O marido era um companheiro fiel e
compreensivo. Daria um bom pai. Mas antes de uma gravidez mais que desejada por
ambos, seria interessante uma segunda lua de mel na Itália regada a queijos,
vinhos e um cenário encantador. Via-se pronta, madura o suficiente para poder
assumir todas as responsabilidades de que fosse incumbida. Sentia-se dona do
mundo. Nada poderia sair de seu controle, e se por acaso saísse, milhares de resoluções
estariam arquitetadas.
A correria diária da garota foi
afastando-a pouco a pouco de fitar aquele retrato. Contas a pagar, unha a
fazer, trabalhos a finalizar. Agora a menina estonteante merecia apenas uma
rápida passada de olho. Um sorriso amarelo de canto de boca. Um prazer
diferente. Acredito ainda que logo possa vir a ser substituído por aquela nova
foto, tão mais harmoniosa, que acabara de mandar revelar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário