sábado, 12 de janeiro de 2013

A garota do retrato



Ela via sua própria foto no mural das lembranças. Gostava de reparar em cada detalhe daquela gravura. O vestido florido era presente de uma pessoa muito especial. As pessoas na foto, cada uma mais estonteante do que a outra, dando congratulações ao ingresso dela em uma nova fase de sua jornada: estavam em sua festa de formatura. Os olhares e as expressões de todos chamavam-na preferencialmente a atenção. Se possível gostaria de lembrar o que realmente se passava em sua mente no exato momento da foto. Será que aquela garota do retrato sabia o que estava para acontecer? Será que ela imaginaria aonde poderia chegar?   

Não. Ela simplesmente não seria capaz de compreender. Era muito imatura e sonhadora, além de possuir gostos musicais duramente repreensíveis. Sua vida ainda não possuía a complexidade que hoje possui. Suas amizades eram seladas na base da afinidade inocente e desinteressada. Intrigas, mau-caratismo, inveja não faziam parte de seus problemas cotidianos. Esses, quando existentes, eram motivados por seu desempenho escolar insuficiente nos períodos de paixonite aguda por algum garoto popular.

Ela se ria com tal leveza e desprendimento julgando-se a dona do mundo e da verdade. E seria difícil convencê-la do contrário. A foto era ostentada como um troféu tamanha beleza da figura que ele abrigava. Era divertido e ao mesmo tempo reconfortante saber que aquela garota já não existia mais. Consistia na versão esboçada da que agora a observa. Já não podia achar a foto como o símbolo máximo da perfeição, longe disso. O contexto já se perdera e não poderia ser recuperado.

Vivia agora em outro momento. Já formada, agora trabalhava em uma firma multinacional. Recentemente casada, ansiava por ter filhos. Um casal. O marido era um companheiro fiel e compreensivo. Daria um bom pai. Mas antes de uma gravidez mais que desejada por ambos, seria interessante uma segunda lua de mel na Itália regada a queijos, vinhos e um cenário encantador. Via-se pronta, madura o suficiente para poder assumir todas as responsabilidades de que fosse incumbida. Sentia-se dona do mundo. Nada poderia sair de seu controle, e se por acaso saísse, milhares de resoluções estariam arquitetadas.

A correria diária da garota foi afastando-a pouco a pouco de fitar aquele retrato. Contas a pagar, unha a fazer, trabalhos a finalizar. Agora a menina estonteante merecia apenas uma rápida passada de olho. Um sorriso amarelo de canto de boca. Um prazer diferente. Acredito ainda que logo possa vir a ser substituído por aquela nova foto, tão mais harmoniosa, que acabara de mandar revelar.


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