quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Mercado de Valores



Fábio e Joana se viam todos os dias úteis. Trabalhavam no mesmo local em mesas bem próximas. No início se cumprimentavam com um simples balançar de cabeça. Ele, mais antigo na empresa, fez questão de apresentar Joana a todos e fazer com que esta se sentisse confortável em seu ambiente de trabalho.

Passaram-se os meses e os cumprimentos foram ficando mais afetuosos. De manhã, no início do expediente, cumprimentavam-se com um aperto de mão prolongado e na despedida Fábio dava um leve e tenro toque no ombro de Joana.


Ele namorava com Dora havia sete anos e o relacionamento, embora tivesse caído na rotina, ainda era prazeroso para ambos. Joana não se relacionava com ninguém havia três anos, após o rompimento de seu noivado com Peter.


Fábio, sempre extrovertido, tirava sorrisos largos da boca de Joana sem fazer muito esforço. Qualquer dúvida ou caso inusitado lhe era imediatamente narrado e ambos deleitavam-se com a presença um do outro.


No último dia do primeiro ano do novo trabalho de Joana esta parecia não querer se despedir de Fábio. A simples presença dele sentado periodicamente ao seu lado a reconfortava imensamente. Ele também não pareceu tão animado a entrar de recesso como nos anos anteriores.


E neste dia despediram-se com um abraço curto e desengonçado. Joana inclinou o rosto para receber um beijo na face que não foi dado por vergonha ou falta de intimidade. Ambos se viraram e desejaram boas festividades um para o outro.


Retomadas as atividades da empresa, Joana chegara adiantada ao local de trabalho tamanha sua ansiedade em rever o colega. No momento em que chegou encontrou Fábio com seu semblante extasiado e com um sorriso tímido, daqueles em que apesar de não ser possível enxergar os dentes, continham mais alegria e expressividade que muitos risos largos.


Os dois conversaram sobre o que haviam feito no recesso e onde haviam comemorado o Ano Novo. Era visível a alegria do reencontro. Gargalharam por um momento e retomaram as atividades rotineiras da empresa.


Entre uma transação financeira e um empréstimo, Fábio procurava algum assunto para intervir e conversar com Joana. Esta ansiava por aquelas intervenções, que permitiam-na esquecer suas angústias e antigas frustrações.


O rompimento do relacionamento com Peter foi para ela bastante traumático. Eles haviam se conhecido em uma viagem desta à Holanda e desde lá começaram a se relacionar. Quando da volta desta, Peter resolveu acompanhá-la e mudou-se com ânimo definitivo ao Brasil. Moravam juntos desde então. 


Três anos se passaram até que Peter resolveu lhe pedir a mão em casamento. Joana não pôde conter a alegria que sentia no momento e aceitou sem titubear. 


Foram dois anos de noivado até que Peter, certo dia, virou-se para Joana e pediu a aliança de volta. Informou que não estava mais dando certo e não forneceu maiores explicações. Pegou suas malas e zarpou de volta à Holanda. E assim como começou, o relacionamento de ambos findou-se: randomicamente.


Desde tal incidente, Joana não conseguia mais se relacionar com pessoa alguma. Ela sempre se sentiu culpada pelo fiasco de seu noivado. Não se sentia a vontade com ninguém e a menina que antes era intuitiva e tranquila, passara agora a desconfiar sempre que uma pessoa buscava algum tipo de aproximação.


Esta desconfiança, por sua vez, não atingiu a Fábio. Este, ao contrário, fez com que aquela se sentisse acolhida e benquista. O labor, além de uma distração era para ela um prazer em razão de sua companhia.


Já Fábio namorava com Dora há sete anos e ainda não havia sentido a mínima vontade de casar. Ela, apesar de tranquila, ansiava pelo dia em que tal pedido chegasse. Conheceram-se em um festival de MPB, local em que além de olhares, trocaram telefones e alguns beijos.


A cumplicidade foi crescendo com o passar dos anos ao passo que o amor de Fábio por Dora foi estagnando e caindo na mesmice. Ele ansiava pelo novo. Pela aventura. Sentia falta de algo que não sabia o quê exatamente. 


Foi aí que apareceu Joana. Esta ressuscitou o viés acolhedor e protetor de Fábio. Ele buscava artifícios diversos para diverti-la. Ambos se compraziam da presença um do outro e se completavam em suas carências.


No ambiente de trabalho todos notavam a cumplicidade dos dois. Até clientes poderiam notar. Era visível. Todavia, os desejos de ambos eram reprimidos em nome da decência. E eles conviviam bem daquela maneira. Riam-se, entretinham-se e só.


A confiança passada por Fábio permitiu com que Joana voltasse a acreditar no amor dos homens. E foi através dele que conheceu Paulo e engatou com ele um relacionamento manso, pacífico e doce. 


E assim permanece o ambiente de trabalho para Joana e Fábio: leve, delicioso e encantador. É fato que um não será inteiramente feliz sem a presença do outro, mas contidos os impulsos iniciais, em verdade vos digo que esta amizade e companheirismo ultrapassarão os limites da aposentadoria compulsória. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário