domingo, 2 de março de 2014

Lavoisier aplicado à cultura


Há algum tempo venho percebendo que sutilmente incorporo detalhes de filmes e livros que leio à minha personalidade e meus gostos e os modifico de acordo com os meus interesses ou vontades. E com o passar dos tempos e das preocupações diárias não me lembro bem de onde tirei esta ou aquela mania.

Falo primeiramente do filme (metalinguístico) que me fez começar a raciocinar sobre o referido assunto: o Fabuloso Destino de Amelie Poulain. Já o assisti algumas vezes e todas as vezes que o faço, me vem à memória as coisas simples que faço, gosto (ou não) e que, por isso, me caracterizam.

Tentarei enumerá-las de maneira exemplificativa:

1- Gosto de bolo de trigo com mortadela e adoro bolos de aniversário com muito recheio;
2- Me incomoda quando o vapor da pamonha quente me embaça os óculos;
3- Gosto de ouvir histórias e não me importo se as mesmas já foram contadas;
4- Gosto de amassar massas;
5- Prefiro comer o recheio da bolacha primeiro;
6- Assisto a documentários de pessoas que não são muito exaltadas pelos meios de comunicação e procuro entender qual foi a contribuição dela para a sociedade (ou apenas para sua própria vida);
7- Gosto de roupas e calçados que não me apertem ou incomodem;
8- Não gosto de suco de caju, vitamina e misto quente.

Estas são algumas de minhas características que me fazem a pessoa que sou. E perceber isto é uma maneira de se conhecer e modificar aquilo que você gostaria que fosse modificado. 

Muitas vezes com as preocupações eleitas mais urgentes, deixamos de nos deliciar da nossa simplicidade assim como das pessoas que nos cercam. E, em minha singela opinião, a robotização que a vida nos impõe faz com que nos tornemos insensíveis aos detalhes. Porém estes, hora ou outra, merecem destaque. 

Já o filme de animação “Mary e Max” fez-me refletir sobre algo que eu já vinha colecionando: palavras preferidas. Seja pela sua sonoridade ou pelo seu significado, algumas palavras me chamam a atenção de maneira diferente das que uso em meu vocabulário diário.

Apesar de preferir estas palavras às demais, não as substituo em toda oportunidade que posso. Guardo-as comigo, como um tesouro, um achado. As ocasiões em que são expelidas devem ser especiais (e significativas).

São algumas delas: altaneira, cabrocha, malemolência, quiproquó, celeste, chorumela, lânguido, olvidar, cabreiro, matreiro, desarvorado, engambelar, soslaio.

Passando para os livros, foi somente quando reli a obra de Jostein Gaarder denominada O dia de Curinga que percebi de onde havia eu adquirido a mania de ler palavras ao contrário.

Minha alegria é maior quando alguma palavra, quando lida ao contrário, torna-se imbuída de algum significado. Por exemplo, descobri que ARGOS, a denominação de uma empresa ao contrário é SOGRA. E o sobrenome RAMOS ao contrário é SOMAR. 

É nestes momentos em que me sinto uma detetive investigativa que descobrirá a peça-chave para a resolução de determinado mistério apenas por inverter a ordem dessa ou daquela palavra.

Às vezes vou mais além: procuro anagramas.  Inverto a ordem das palavras, mexo na posição de algumas letras até descobrir alguma palavra com significação. Reinventando aquilo que adquiri com a leitura de uma obra da qual havia esquecido do enredo principal.

Mas é aí que vem a dúvida: Será que estes meus hábitos um tanto peculiares foram influenciados pelo que me cerca ou será que eles são anteriores e foram reforçados de alguma forma por estes? 

O tempo e a memória falha me impedem de responder a esta questão de modo seguro e certo. 

Mas isto não importa. A ordem dos fatores nesse caso não altera o resultado. O fato é que a leitura e as fontes midiáticas de alguma forma ajudam a incorporar aquilo que sou e que me torna uma pessoa única. Não especial, ao revés, nada especial, já que todos são diferentes e estão envoltos em suas significações próprias.

Rememorando o teorema do químico Lavoisier, na natureza nada se cria, nada se perde, mas tudo se transforma.

Assim, adequando o teorema e interpretando-o a meu favor, sinto-me constantemente agraciada pelas intervenções da arte em minhas modificações constantes, sejam elas pequenas, minuciosas ou expressivas.

Por fim, espero poder cada vez mais agregar ao meu eu detalhes ou hábitos que possam ajudar a me definir e a me encontrar. Que possam me tornar uma pessoa multifacetada e ávida à descoberta do novo. Sempre. 

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