Uma noite, ao voltar do trabalho, numa
rua específica localizada na cidade de Goiânia, Brígida viu pelo retrovisor um
casal. O menino deveria ter seus vinte e poucos anos assim como a menina. Não
soube precisar com a devida certeza se havia alguém no banco de trás. A feição
do jovem era sempre de alegria e satisfação por estar na companhia da amada.
Pareceu a seu ver, ser uma pessoa altiva e brincalhona, que se ria nas
dificuldades e delas, parecia ainda levar a vida de uma maneira amena e sem se
afligir por pouca coisa.
O jovem entregava à menina no banco de
carona um buquê, que poderia ainda ser um ovo de páscoa (a visão de um
retrovisor embaçado é quando não ruim, péssima). Já a menina, apresentava o
cenho franzido como se tudo pudesse ser motivo para discussão. Infelizmente o
áudio desse curto vídeo não lhe foi permitido. Tinha que aprender a utilizar-se
dos outros sentidos e expressões envolvidas na cena.
Tentou pegar alguma palavra por meio
de leitura labial, mas quando parecia estar começando a esboçar um progresso, o
sinal logo abria e todo o seu trabalho se perdia em marchas. Então, para
completar essa parte teve ela que abrir as portas da imaginação e supor os
possíveis diálogos: talvez tivesse ele se atrasado mais uma vez, ou ainda
conversado de maneira diferente com aquela novata intercambista, teria a
obrigado a passar um fim de semana na fazenda dos seus pais...
Ela poderia despender horas, dias
naquele processo de adivinhação, mas resolveu conter-se e observar o porvir.
Percebeu, porém, que por trás daquela seriedade e frieza, um sorriso se
mostrava às vezes inevitável. Talvez fosse esse sorriso o elemento-chave para a
manutenção dessa união. O caminho percorrido por ambos permaneceu o mesmo por
um bom tempo e enquanto isso Brígida criava desfechos mil, mas em algum
instante aquele casal seguiu o seu rumo e ela voltou a se ocupar apenas do
trânsito.
Ela dirigia sozinha. Andava com os
vidros trancados. Cuidava apenas da sua vida e do seu papagaio. Nunca em sua
vasta carreira automobilística ela teria ousado olhar além do retrovisor e
enxergar o que talvez não devesse ser visto. Aquele era um dia diferente. A
vidinha bitolada e repetitiva da moça ganhara um tempero a mais. Os pensamentos
que antes se resumiam ao que se ter para o jantar começavam a ficar mais
complexos.
Esse flash que pode ter durado menos
de cinco minutos fez com que ela quebrasse uma barreira anteriormente
intransponível e começasse novamente a pensar nos rumos de sua própria vida.
Como é que havia chegado àquele ponto. Ela que sempre foi uma garota
comunicativa e solidária estava agora sozinha e cabisbaixa. O namorado queria
algo mais sério e ela não. Ele então não mais a incomodou. Ela então se
aventurou na experiência de morar sozinha, já que seus pais ansiavam por mais
liberdade. Enfiou a cara nos estudos e passou em um bom concurso, porém estava
longe de sentir-se realizada.
Trocou de carro esse ano: design
arrojado, vidros auto-limpantes, um retrovisor maior. Guardava metade do que
ganhava, mas não possuía nenhum propósito. Guardava-o talvez para uma futura
emergência. E o grande sonho de conhecer o mundo esvaiu-se em algum momento da
monotonia rotineira.
Preparou-se para dormir, mas não conseguia.
Pensava no casal observado no percurso de volta ao lar. Lembrou-se de Willian e
das poesias matinais deixadas embaixo da vasilha de cereais. Lembrou-se daquela
jovem cujo sorriso informava ao mundo que o porvir nunca a assustaria, que suas
limitações inexistiam.
Tudo isso eram lembranças. Willian já
havia se casado e postou hoje a foto de seu terceiro filho. Ela, apesar de ter
trinta anos, aparentava o dobro. Não se exercitava há décadas e as dores
apareciam cada vez mais agudas. Maquiagem era um item empoeirado em seu
armário, resquícios de um tempo remoto.
Pensou na menina, de expressão
carrancuda e sombria. Qual seria o motivo para tamanha insatisfação? Ela
ansiava por encontrá-la novamente e aconselhar-lhe a viver bem, a aproveitar o
momento e a não postergar suas escolhas. Queria poupá-la de alguma forma,
impedir que sofresse. Todavia, tirando a ínfima probabilidade da ocorrência de
um segundo esbarrão, a menina em questão sentir-se-ia lesionada em sua
intimidade e poderia quem sabe até chamar a polícia.
O fato foi que após essa simples
constatação, aquela que havia ligado o automático e escolhido viver por
simples osmose, despertou. Começou a correr pelo quarteirão de seu prédio todas
as manhãs e sentiu-se bem mais disposta. As dores diminuíram na mesma proporção
que os sorrisos em seu rosto aumentaram.
As amigas que há muito tempo não via
foram agraciadas com ligações prazerosas e delongadas. Cortou o cabelo e escondeu
os prematuros fios brancos. Instalou um som no carro e comprou aquele Box do
Bon Jovi que tanto desejava.
Ligou para os seus pais e chorou ao
perceber que antes não os ouvia, mas apenas respondia automaticamente e sem
entusiasmo às suas queixas e novidades. Visitou-os e foi presenteada com um
abraço que poderia ser comparado a um choque de um desfibrilador potente, pois
a trouxe de volta à vida.
Marcou uma viagem para o exterior, sem destino
pré-estabelecido. Viajou com uma amiga de serviço e conheceu lugares
inimagináveis. Foi galanteada por italianos e festejou com desconhecidos
russos. Depois de dois meses voltou.
A latência que lhe era inerente
desapareceu em um momento que também não se sabe precisar. Sentia-se mais
segura e certa de que nada a abateria.
Certo dia, algum tempo após sua
reviravolta vital, encontrou novamente o casal estopim de sua transformação.
Olhou-os pelo retrovisor como se houvesse encontrado novamente um amigo de
longa data e a surpresa daquela situação a deixou estática. Depois de um curto
tempo (questão de milésimos de segundos) resolveu ela apenas observá-los
novamente.
Estavam agora felizes e rindo.
Cantando talvez uma música, pois se expressavam exageradamente. Aquilo a
comovera significativamente. E, quando encontrou uma oportunidade de
ultrapassá-los, gritou com toda a força de seus pulmões:
__ Obrigada!!
E seguiu seu caminho cantando Bon
Jovi.
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