domingo, 19 de abril de 2020

Quarentena

Quarenta dias de saudade
Cinquenta de solidão
Em alguns deles ansiedade
Outros incerteza e constatação

De que a vida não espera
Só espera que você
Não se desespere

Além das dificuldades
A ela já inerentes
Podem surgir ainda
Outras modernas, supervenientes
Que te obrigam a parar

Então pare, leia um livro
Tome um fôlego
Restitua essa vontade
Os impostos, pra mais tarde
Tudo isso vai passar

Só não perca a esperança
Quem espera alcança
Algo nessa randômica dança
Valsa de criança
Nosso caminhar

sábado, 28 de março de 2020

O tempo de Aurora


 Aurora andava sempre angustiada. Sentia-se incompleta. Algo faltava em sua vida. Mas o que?

Pensou por várias vezes que a razão desse vazio fosse a ausência de um companheiro, de uma pessoa com quem pudesse contar. Teve lá alguns casos efêmeros e esparsos com rapazes com quem não conseguiu se abrir. Sempre se lembrava daqueles versos de uma música do Vinícius: “quem de dentro de si não sai/ vai morrer sem amar ninguém” e se questionava: teria ela em algum momento de sua vida se aberto com alguém?

Muito tímida e temendo opiniões externas e rejeições, ela seguiu por muito tempo a filosofia zecapagodiana de deixar a vida a levar. As coisas passavam e ela se mantinha inerte. Às vezes fazia-se de indiferente, mas no fundo morria um pouco por dentro em determinadas situações, por não saber como lidar.

Observava à distância a vida dos outros e se impressionava com a rapidez que determinadas pessoas se desfaziam de outras, com as mudanças constantes na rotina de alguns. E a vida dela permanecia imóvel. Dava voltas, ensaiava mudar, mas retornava à estaca zero.

Gostar. Aurora queria perseguir aquele verbo. Queria entende-lo a fundo. Amar então... nem se fale. Não se conseguia imaginar escrevendo declarações públicas de afeto com tanto entusiasmo e com a energia autêntica dos casais apaixonados.

Para ela seria tudo um forçar de barra sem tamanho. Mas não queria que fosse. Queria poder encontrar uma pessoa que pudesse a fazer ser completamente honesta.

A menina de cabelos ruivos e andar esguio não se questionava apenas no âmbito sentimental. Esse era, sem dúvida, um tema recorrente que a perseguia, mas não o único. Questionava ainda sua posição no mundo.

Sentia-se desimportante. Em determinada ocasião, retomando à sua infância, seus pais a esqueceram no colégio por duas horas além do previsto. Isso só reforçou, desde então, sua dispensabilidade.

Um dos seus maiores medos era parecer inconveniente, pedante. E às vezes pecava mais pela falta do que pelo excesso. É uma amiga distante. Conversa, procura manter as amizades, mas não é assídua nesse sentido.

Tem poucos amigos, mas pode contar com eles para o que precisar.

- Mc chicken? (com um som bem nasalado). Pra comer aqui ou pra viagem?

Ela não sabia responder àquela pergunta. Ficou atônita por um tempo, enrolando a enorme fila da lanchonete e raciocinando sobre a vida sem parecer chegar à conclusão alguma. Por fim, saiu e, como se ainda estivesse em outra dimensão, engoliu o sanduíche sem perceber o que fazia.

E assim se passaram alguns dias, meses, anos, nessa reflexão infinita. Sua angústia preocupava aqueles que estavam à sua volta. Ela que já era introspectiva, foi ficando cada vez mais fechada, se sentindo mal consigo mesma, feia, incompetente, desprovida de inteligência e de quaisquer outras qualidades. Além de tudo se sentia um peso por depender de seus pais.

Já não estava tão jovem e os planos de constituir família e ter filhos ia se esvaindo. Com tantas opções mais interessantes que ela, qual seria o seu diferencial? Seu mundo que já não era lá tão colorido foi ficando cada vez mais cinza, esbranquiçado, disforme.

Foi nesse momento que a indicaram a análise, a meditação e a prática contínua do autoconhecimento. Aurora foi racionalizando medos antigos, percebendo os desvios que a haviam trazido até aquele momento e encarando de frente seus problemas. Responsabilizou-se a partir daquele momento por sua vida.

Gostaria de iniciar esse novo parágrafo dizendo que tudo se transformou e que ,em um passe de mágica, Aurora se tornou mais confiante, que descobriu o caminho a seguir, sua beleza interior e tudo o mais que procurava. Não foi bem assim... Crises houveram, momentos de fraqueza, de dúvidas e não consigo precisar se esses ainda não se repetirão. O processo é lento e gradual, mas Aurora continua firme no propósito de se melhorar a cada dia.

- Miguel, vamos ao divã?

Ao sair da sessão, seus olhares se cruzaram. Um sorriso discreto veio junto. Quem sabe?





quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Hoje não

Hoje não
Tô sem cabeça
Amanhã talvez terei

E assim se vão os dias
Os anos, as décadas
Tempo nunca se tem

A inspiração é engolida
Pela obrigação
Pela dura lida

Postergo o prazer
O trabalho carrega a culpa
Do "no pain no gain"
Da produtividade absoluta

E já não ouço Caetano
Já não leio Fernando Pessoa
E não gosto dessa pessoa
Sem tempo, exaurida
Entra ano, sai ano


quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Ao meu avô Elísio

Sempre tinha no bolso uma "pratinha"
Amava um dominó
Veio de longe, lá da Bahia
Mas nunca esteve só

Fanília grande ele tinha
E sendo dos filhos o primeiro,
Era mais cobrado, como costumeiro
E trabalhou desde muito cedo

Viu Candelária e dela se enamorou
Sem demora, logo casou
Cinco filhos: uma moça e quatro rapazes
Encheram de luz e vida essa união

Após, com a vinda dos netos
A seriedade foi abrandada
Todos caiam na gaitada
Com as suas traquinagens

Primeiro se foi sua esposa
Deixando uma enorme saudade
Que nem todo passar da idade
Deixará amenizar

Agora se vai Elísio
No ciclo da vida sem dó
Vai o homem, ficam as memórias
Mas saiba, o senhor nunca estará só.

 



terça-feira, 30 de julho de 2019

Me edite

Vamos abstrair
Tirar uma foto
Sorrir
Comer um novo prato
Sushi
Viajar nos pensamentos
Havaí

Lembrar da abstrata leveza
Dos tempos de outrora
Que no momento não o foram
Mas o são agora

Inspirar
Expirar
Meditar 

Revisitar as flores
O andar dos coadjuvantes
Os moinhos de Cervantes
Esmaecer as dores


domingo, 23 de junho de 2019

O ônus da idade

Escolhas são feitas
Conscientemente ou não
Basta estar vivo
E todas as suas atitudes
Se tornam decisão

Algumas tranquilas
Outras nem tanto
Trazem o pranto
A incerteza triste
Que sente quem existe

Mas não sejamos pessimistas
Tudo é experiência
O ônus da idade
O certo é pedir ciência
Pois elas são de nossa exclusiva
Responsabilidade


sexta-feira, 24 de maio de 2019

Imagine

"O real chapa"
Já dizia o mestre Waly
Mas a imaginação, meu chapa
Essa é bonita
Infinita
E não se limita à finitude daqui

A realidade é dura
Cobra prazos
Exige atitudes

Mas para mim
A maior virtude
É a de quem, apesar de tudo
Vê beleza no cotidiano

Sejamos, pois, observadores
Saibamos imaginar
Para amenizar as dores
Das contas a pagar