Traga aquilo o que importa
Jogue o resto na lixeira
Passe a régua, feche a conta
Pois "em redor do buraco
Tudo é beira"
E com essa química saudável
Que me capacita a enxergar
Ouço o canto de Ariano
Que não é pernambucano
Mas bem que poderia ser
A lógica das coisas simples
Se esconde na obviedade
Que de automática e fluida
É errônea com o tempo
E mal entendida com o passar da idade
sábado, 18 de janeiro de 2014
sábado, 4 de janeiro de 2014
Soneto da desconstrução
Sempre preferi
pela livre métrica
Pela expressão
fluida das ideias
Nunca havia
me atido à forma
O faço para
ganhar novas plateias
Mas meu
real objetivo é outro:
Pretendo atestar
minha intuição
Será que a atenção
à estrutura
Desconfigura
do pensar a fruição?
Tantas foram
as declarações de amor
Escritas
sobre esta velha roupagem
E
transmitiam ao leitor certo rubor
Tipicamente
próprio do personagem
Hoje vejo o
soneto qual a vida
Significativa,
embora tolhidaquinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Aniversário da Ana Eugênia
Após o mundo não ter-se acabado,
E permanecermos aqui viventes,
Podemo-nos jubilar de contentes,
Por ser tempo do nascer celebrado.
Não digo do fato bimilenar
- Quando o Verbo de Deus foi encarnado-;
Mais fui de uma bem-nascida inspirado,
Pois ela veio ao mundo melhorar.
Venho, enfim, desejar-lhe muita vida,
Amor, paz, saúde e prosperidade;
E que se embriague (de comovida!)
Pela alegria crescer co'a idade.
E permanecermos aqui viventes,
Podemo-nos jubilar de contentes,
Por ser tempo do nascer celebrado.
Não digo do fato bimilenar
- Quando o Verbo de Deus foi encarnado-;
Mais fui de uma bem-nascida inspirado,
Pois ela veio ao mundo melhorar.
Venho, enfim, desejar-lhe muita vida,
Amor, paz, saúde e prosperidade;
E que se embriague (de comovida!)
Pela alegria crescer co'a idade.
27 de dezembro de 2012
W.R.B
Peculato
Peco sim, em sentido lato
Já que fui contratada para trabalhar
Peco sim, com este simples ato
Já que não recebo para divagar
Já que fui contratada para trabalhar
Peco sim, com este simples ato
Já que não recebo para divagar
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Texto de autoria de um grande amigo
Theodoro Anselmo não voltou para casa no horário usual. Tatiane Márcia, sua esposa, observava o relógio. Igualmente preocupada e enfurecida, pensava:
- Se ele não morreu, eu mato!
E assim passou aquela noite em claro. O celular de Theodoro Anselmo estava fora de área. Ela criou trinta e oito teorias sobre o que poderia ter acontecido. “Ele deve estar por aí com alguma quenga e perdeu a hora” ou “E se ele tiver sido sequestrado?”. E o dia raiou. Tatiane Márcia foi até a delegacia na companhia de uma de suas cunhadas. Ninguém sabia do paradeiro de seu marido. Ela não pôde ir trabalhar. Seu chefe compreendeu. Procurava por toda a cidade. A última informação que obteve era de que ele havia saído do trabalho normalmente na quarta-feira.
Tatiane Márcia não teve tempo sequer para choro, mas já começava a se desesperar. O dia passou e perfazia vinte e quatro horas do sumiço. E agora somente pensamentos trágicos povoavam sua mente. A noite veio. Terrivelmente cansada e desolada, já não sabia mais o que fazer. Deitou-se estatelada no chão da sala de sua casa e não levantou, estava em choque.
À meia-noite ouviu a campainha tocar. Com um misto de medo e esperança, atendeu a porta. Viu correr longe um rapazote. Uma carta no chão. Abriu. “Encontre-me às dez da manhã no beco onde nos amamos pela primeira vez. Não leve ninguém contigo ou algo ruim poderá me ocorrer. Theodoro Anselmo”.
Tatiane Márcia não era lá uma pessoa muito intuitiva, mas sentia que aquilo não era nada bom. Aquela era a letra de Theodoro Anselmo, com certeza. Isso a tranquilizava, contudo, o mistério envolto naquele recado não lhe trazia a melhor das esperanças. Não avisou a ninguém do ocorrido.
Acordou da noite mal dormida. Aprontou-se. Lá estava Tatiane Márcia relembrando, de uma forma muito dolorosa, o início de sua relação com Theodoro Anselmo. Cada passo, cada rua atravessada em direção ao beco só a deixava mais aflita. Assim que adentrou o local, avistou um envelope vermelho no chão. Sem titubear, abriu. “Estou em perigo. Transfira todas as joias da nossa casa para a casa de sua mãe ou para algum outro lugar de sua confiança. Theodoro Anselmo”.
Perplexa com tal informação, Tatiane Márcia se sentiu insegura. Realmente as joias eram o que possuíam de maior valor na casa. Voltou assustada para seu lar. Adentrou seu quarto e mais que rapidamente digitou a senha do cofre. Pegou todos os anéis e colares e os colocou em uma sacola. Um anel com um enorme diamante chamou-lhe a atenção. Era muito bonito. Aquela joia não lhe pertencia. Ouviu um barulho às suas costas. Virou-se. E ouviu:
- Gostou da surpresa?
Sampaiomdc
- Se ele não morreu, eu mato!
E assim passou aquela noite em claro. O celular de Theodoro Anselmo estava fora de área. Ela criou trinta e oito teorias sobre o que poderia ter acontecido. “Ele deve estar por aí com alguma quenga e perdeu a hora” ou “E se ele tiver sido sequestrado?”. E o dia raiou. Tatiane Márcia foi até a delegacia na companhia de uma de suas cunhadas. Ninguém sabia do paradeiro de seu marido. Ela não pôde ir trabalhar. Seu chefe compreendeu. Procurava por toda a cidade. A última informação que obteve era de que ele havia saído do trabalho normalmente na quarta-feira.
Tatiane Márcia não teve tempo sequer para choro, mas já começava a se desesperar. O dia passou e perfazia vinte e quatro horas do sumiço. E agora somente pensamentos trágicos povoavam sua mente. A noite veio. Terrivelmente cansada e desolada, já não sabia mais o que fazer. Deitou-se estatelada no chão da sala de sua casa e não levantou, estava em choque.
À meia-noite ouviu a campainha tocar. Com um misto de medo e esperança, atendeu a porta. Viu correr longe um rapazote. Uma carta no chão. Abriu. “Encontre-me às dez da manhã no beco onde nos amamos pela primeira vez. Não leve ninguém contigo ou algo ruim poderá me ocorrer. Theodoro Anselmo”.
Tatiane Márcia não era lá uma pessoa muito intuitiva, mas sentia que aquilo não era nada bom. Aquela era a letra de Theodoro Anselmo, com certeza. Isso a tranquilizava, contudo, o mistério envolto naquele recado não lhe trazia a melhor das esperanças. Não avisou a ninguém do ocorrido.
Acordou da noite mal dormida. Aprontou-se. Lá estava Tatiane Márcia relembrando, de uma forma muito dolorosa, o início de sua relação com Theodoro Anselmo. Cada passo, cada rua atravessada em direção ao beco só a deixava mais aflita. Assim que adentrou o local, avistou um envelope vermelho no chão. Sem titubear, abriu. “Estou em perigo. Transfira todas as joias da nossa casa para a casa de sua mãe ou para algum outro lugar de sua confiança. Theodoro Anselmo”.
Perplexa com tal informação, Tatiane Márcia se sentiu insegura. Realmente as joias eram o que possuíam de maior valor na casa. Voltou assustada para seu lar. Adentrou seu quarto e mais que rapidamente digitou a senha do cofre. Pegou todos os anéis e colares e os colocou em uma sacola. Um anel com um enorme diamante chamou-lhe a atenção. Era muito bonito. Aquela joia não lhe pertencia. Ouviu um barulho às suas costas. Virou-se. E ouviu:
- Gostou da surpresa?
Sampaiomdc
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Salão dos passos descobertos
Ele se mostrava introspectivo em sua
origem. Quando pequeno gostava de brincar sozinho. Inventava histórias com
diálogos complexos e interpretava todos os personagens. Na escola sempre foi o
menor da classe e talvez por isso não era capaz de olhar nos olhos de ninguém.
Foi desse modo que ele desenvolveu aguçadamente um sentido: a audição.
Ouvia os barulhos mais ínfimos como o
pousar de uma mosca na lâmpada fluorescente ou ainda o sussurrar de uma brisa
leve, mas o que mais o interessava eram os passos.
O garoto era capaz de identificar pessoas
conhecidas apenas pelos passos que davam. Passos cansados, arrastados, alegres,
firmes ou enérgicos forneciam boas pistas sobre a personalidade das pessoas,
pensava ele.
Começou estudando uma pessoa por vez. Tinha
por volta dos dez anos quando, com um caderno brochura, criou uma tabela
simples relacionando comportamento versus passos.
Sua primeira cobaia foi sua mãe. Ela era
uma mulher magra e bem agitada e suas passadas eram para ele inconfundíveis.
Indicavam a mulher ocupada e inquieta que era. Sempre trabalhando e procurando
sustentar a ele e aos seus três irmãos.
O pai os havia trocado por uma mulher bem
mais jovem e a maneira que sua mãe encontrou de esquecê-lo foi trabalhando
incessantemente. Os passos dela eram automáticos e até ritmados: três por
segundo. Eles também não cessavam por longos períodos. Novas varizes brotavam
diariamente devido a isto.
Após a mãe, ele analisou os irmãos e foi
estendendo a pesquisa às pessoas que compunham o seu circulo de
relacionamentos. Analisou tias a tios, primos próximos e distantes e as pessoas
de sua sala de aula. Apesar da distração de seu hobby seu desempenho escolar
não havia diminuído nem um pouco.
Registrou suas anotações e, ao final de um
ano de pesquisa incessante, conseguiu tirar algumas conclusões básicas.
Ele sabia que estas conclusões não eram
regras, mas apenas direcionamentos. Claro que algumas pessoas e alguns passos desviavam-se
dos padrões esperados ou ainda não condiziam com o comportamento de quem os
dava. Todavia, a grande maioria mostrava-se harmônica com o por ele previsto.
O tempo foi passando e seu frisson por
passos permaneceu. Entristecia-se ao ver sua mãe com passos cada vez mais
robóticos. Queria poder ajudá-la. Mas como? Se ele mesmo tinha passos tímidos e
sem vontade? Se ele não enfrentava os próprios problemas ou ainda olhares
alheios?
Apesar de sua baixa autoestima, o garoto
conseguiu encantar uma bela menina de tranças compridas e olhos vivos. Tinha
treze anos quando cedeu aos encantos desta garota de passos largos, destemidos
e ousados.
A partir daí o garoto vivenciou anos
dourados. A vida que era sombria e fria ganhava mais cores e clichês diversos. Continuava
o mesmo: tímido, pouco confiante, mas agora amava e apoiava-se em alguém forte.
Ela era como uma muleta para ele, na qual ele se prendia e sem a qual não sabia viver.
O relacionamento durou exatos nove anos.
Findou-se em razão do intercâmbio de quatro anos desta para a Austrália. Ele,
apesar de imensamente desolado nos primeiros meses de término, entendeu que
aquela pessoa que lhe foi tão querida havia compartilhado momentos incríveis ao
seu lado com o propósito de encorajá-lo a alçar vôos cada vez mais ousados. Suas
passadas indicavam isto desde o início.
Desde o fatídico acontecimento a reflexão
tomou conta de seu ser: Será que os passos permaneceriam os mesmos a todo tempo
da vida? Será que eles, assim como seus donos não são capazes de mudar ou adquirir
novos comportamentos, às vezes até contraditórios aos anteriores? Todas estas
perguntas rodeavam-no a todo o tempo. Empiricamente constatou que são poucas
aquelas pessoas realmente dispostas a mudar.
Isto visto que a mudança é sempre algo
incômodo. Muitas variáveis podem estar em jogo. Muitos preferem não se arriscar
e permanecem numa zona de conforto constante, mesmo que não seja aquela sua
real vontade, mas por ser a via mais simples e menos traumática.
Lembrou-se de sua mãe. É óbvio que ela não
gostaria de permanecer naquela condição. Mas para onde iria? Seria confortável para ela recomeçar? A incerteza e a tensão do novo podem se materializar em uma inércia pacífica e prolongada.
Ele mesmo pensava em mudar. De passos, de
país, de vida. Apesar da convivência da garota ter-lhe feito uma pessoa
melhor, suas convicções permaneciam as mesmas, seus passos arrastados e sem
entusiasmo e as ideias de mudar eram-lhe apenas latentes e não saiam do plano
aristotélico das ideias.
Certo dia, numa noite de sábado, o garoto
demorou a dormir. Teve sonhos pouco compreensíveis e os passos ressoavam em sua
cabeça como sinos. Ao levantar percebeu que seu pé direito encontrava-se um
pouco mais inclinado para fora. Suas passadas tímidas e arrastadas agora eram
mais largas e ousadas. Andava como uma criança que acabara de descobrir a
função dos pés.
Tropeçou por vezes até se firmar. As
pessoas começaram a cumprimentá-lo com um sorriso no rosto. Sua cabeça foi aos
poucos deixando de fitar os pés e passou a acompanhar a linha do horizonte.
As cores que a presença de sua musa traziam retornaram com mais brilho e pompa. Preservara seu hábito de analisar os passos
até o fim de seus dias, mas agora olhava também as pessoas em seus olhos e exalava
autoconfiança.
Por vezes teve medo de retroceder, de
acordar frágil e desconfiado. Não! Seus passos só ganharam mais destreza e
vivacidade e a partir de certo tempo tornaram-se para ele muito naturais.
O garoto então, agora com seus vinte e
três anos, decidiu largar o curso de Engenharia Civil que havia começado por
influência e pressão do pai e decidiu fazer o que lhe aprazia: Fotografia e
Comunicação Visual.
Apesar de feliz pela visível mudança do
filho, sua mãe não mudava o andado. Vivia ocupada demais para conversas triviais
e recusava cafunés. Ele resolveu dedicar-se ao árduo processo de modificar-lhe
os passos e de quebra a maneira de enxergar a vida.
Comprou a ela roupas novas e a presenteou
com um dia no SPA. Os compromissos inadiáveis, segundo ela, foram facilmente
remarcados pelo filho.
Em determinado momento do dia ela
conseguiu se olhar no espelho e perceber que ainda era bonita. Que sua pele,
apesar de não ser um pêssego, estava bem rígida. Orgulhou-se das suas linhas de
expressão e pensou em quantas histórias cada uma delas não guardava.
Saiu de lá leve. Seus passos mais
tranquilos. Ganhou elogios obscenos ao passar em frente a uma construção e riu
prolongadamente como há muito tempo não fazia. Ao chegar em casa abraçou o
filho e sem dizer uma palavra ambos se entenderam e choraram copiosamente. Aquele tinha sido o primeiro e mais importante passo de uma
mudança iminente e certa.
O garoto - agora homem - formou-se com
honras na faculdade e, contratado por uma multinacional, hoje viaja o mundo
fotografando minúcias e detalhes. Casou-se com uma mulher distinta de passos
firmes e convictos e exatamente hoje ensina sua primeira filha a andar.
domingo, 3 de novembro de 2013
Umalamar
Você pede o meu perdão
Mas eu não tenho o que perdoar
Eu não sabia que você
Gostava de se enganar
E me enganando fez saber
Como era inútil meu querer
Tanto fiz pra convencer
Que o meu amor
Seria a solução
De todos seus imbróglios e aflições
Uma alma só e dois corações
Mudei meu andado
E o meu jeito de pensar
Comprei aquele velho dicionário popular
Falei bonito e certo
Pra poder te impressionar
Mas pra quê? Mas pra quê?
Eu que cheguei há pouca hora
Não tenho por que me demorar
Afinal sua vida tá bacana
E quem sou eu pra bagunçar
Mas eu não tenho o que perdoar
Eu não sabia que você
Gostava de se enganar
E me enganando fez saber
Como era inútil meu querer
Tanto fiz pra convencer
Que o meu amor
Seria a solução
De todos seus imbróglios e aflições
Uma alma só e dois corações
Mudei meu andado
E o meu jeito de pensar
Comprei aquele velho dicionário popular
Falei bonito e certo
Pra poder te impressionar
Mas pra quê? Mas pra quê?
Eu que cheguei há pouca hora
Não tenho por que me demorar
Afinal sua vida tá bacana
E quem sou eu pra bagunçar
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